semifinal

Eles acreditam

Hoje a tarde encontrei um garotinho de camisa rubro-negra no sinal. Ele vendia balinhas e eu brinquei com ele: “Vai ganhar hoje, moleque!?”.

– Claro, tio!

Esnobe. Me senti até meio discriminado por aquele ser tão convicto de sua fé. E contestei, menti, só de sacanagem!

– Mas você viu que o Everton e o Gabriel não jogam?
– E dai?
– Como “e dai”?  São os melhores! (exagerei)
– Tio, aqui é Flamengo.  Vai uma bala pra ajudar?
– Não, obrigado. Mas você vai ao Maracanã?
– Vô nada, tio! Tenho dinheiro não.
– E vai assistir o jogo onde?
– Sei não senhor. Essa hora to no onibus voltando pra casa.
– Vai ouvir?
– Não precisa não, tio. Vai dar Flamengo.
– Tudo bem, mas você não vai nem acompanhar o jogo?
– Quando eu chego em casa tá acabando. Aí eu vejo o final. É sempre esse horário. Vai uma bala, tio?
– Não, obrigado. Essa merda não anda. Abriu e fechou o sinal e nada…
– Deu ruim ali na frente, tio. Tá tudo parado! Leva uma balinha ai pra ajudar, tio…
– Po, cara. To sem dinheiro nenhum mesmo! Nem moedas! Só se eu te encontrar na volta. Só tenho cartão.
– Tudo bem, tio.  O senhor é Flamengo?
– Não, sou São Paulo.
– Ih, é paulista, é?
– Sou.
– Vixi…
– Que foi?
– Lá é ruim.
– Já foi lá?
– Fui nada.
– E quem te disse que é ruim?
– Se é bom porque o senhor tá aqui?
– Você é esperto, moleque. Mas hoje vai dar Galo, viu? (só pra sacanear antes de ir)
– Aê, tio! Se o Flamengo ganhar tu compra 5 balas amanhã?
– Taí. Compro! Gostei da confiança. Mas… e se perder?
– Perde não, tio. O Flamengo não perde….
– Tchau, garoto! Até!
– Aê, leva uma bala ai…
– Não, tô sem dinheiro trocado…(interrompido)
– É de presente ai, tio. Você é legal.
– Valeu garoto. Boa sorte no jogo hoje, tá?
– Até amanhã, tio! Mengo!!!

E quando ele grita bem alto “Mengo!” e sai do vidro do meu carro o rapaz do carro atrás abre o dele, chama o garoto, aperta a mão dele  e diz: “Dá 5 balas aí, flamenguista!”.

Ele me vê fechando o vidro e grita: “Ae tio! Tá vendo? Esse não vai ter que voltar amanhã!”.

E sim, eu vou voltar.  Claro que vou.  Como se ele não soubesse disso desde as 14h desta quarta-feira…

abs,
RicaPerrone

Era só uma Copa

Vipcomm

Vipcomm

Eu defendo muito a tese de que “É só futebol”. Talvez por ter sido obrigado pela profissão a entender que era só isso, ou talvez para conseguir me manter sem ódio dos rivais do meu time para conseguir ser justo com eles.

Mas pela seleção, mantive. Usei quase que como uma forma de alimentar meu lado torcedor passional e cego. Odiando argentinos, torcendo desesperadamente e não fazendo qualquer esforço para tentar mudar isso.

Fiz dessa Copa o meu maior momento. E na carreira, foi mesmo. Tive uma audiência absurda, fiz diversas propagandas, consegui faturar um dinheiro, bater recordes, ser lido pelos jogadores, até receber pedido de “ajuda” com textos motivacionais e campanhas que pudessem chegar a Grande Comary.

Me envolvi até o pescoço. Como há muito tempo não conseguia me envolver com nada. Eu nunca tive certeza da vitória, mas eu a desejei como poucas vezes na vida desejei alguma coisa.

Eu trocaria todos os centavos que ganhei a mais na Copa por ser campeão e poder correr pra abraçar meu pai no dia 13 de julho. Eu trocaria todo sucesso que meu trabalho fez durante a Copa para poder chorar de alegria com amigos que jamais dividiram uma arquibancada comigo.

Eu voltei a ter 8 anos. Voltei a ser o garotinho que pedia pelo Zico e que esperava o time do Telê ganhar a Copa. Esses 30 dias espetaculares que nosso país viveu devolveram muito do que eu não queria ter perdido enquanto profissional de imprensa.

Eu chorei, vibrei, sofri, pulei, gritei. Discuti, perdi a linha, torci contra, xinguei. E até mesmo ver o meu “inimigo” chegar longe me divertiu, pois eu vislumbrei um duelo final.

Eu comprei camisetas, bolas, fulequinhos e tudo mais para afilhados, filhos de amigos e outras crianças com quem tenho contato. Vi nos olhos delas o que havia nos meus em 86.

Levei 10 horas de estrada pra ir ao Mineirão. Um pneu furado, uma carona apertada, um reboque, um perrengue danado. Só pra estar lá.

E quando acabasse aquilo, tudo que eu queria era poder chorar entre os meus ou comemorar com eles. Eu nunca imaginei viver pra ter na tela do meu computador um grupo de brasileiros debochando de nós mesmos em troca de “ter razão”.

Eu sinto realmente pelas pessoas que acham que isso tratava-se de um campeonato de futebol. Tenho vontade de sentar cada um deles na minha frente e explicar o que é futebol pra uma geração que está sendo criada para minimiza-lo através de uma imprensa azeda, mal paga, de olhar opaco e pessimista.

Não é pelo hexa, meus amigos. É pela Copa com meu pai, que não sei quantas terei. É pelo direito de abraçar meus amigos que não dividem o amor por um clube. É pela festa, pelos amigos, pelo orgulho, pelo hino que só posso cantar emocionado num estádio de futebol.

Pelo único lugar onde ser brasileiro com “muito orgulho” não é ridículo.

É pela minha carreira, pelos meus planos, pelo dinheiro e pelo alcance do que faço. Mas principalmente, juro, pelo garoto de 8 anos que eu reencontrei nestes 30 dias de Copa.

Se você torceu contra, eu fico realmente chateado. Eu queria dividir essa dor com você, não disputar quem se importou menos.

Eu queria consolar meus leitores brasileiros pela tristeza de terça-feira, jamais ter que me defender de alguns deles.

Eu queria estar na final. Queria conseguir chorar a porra da lágrima que está presa na minha garganta desde as 17h30 de terça-feira, quando sai daquele estádio a pé, sem rumo, ligando pra minha esposa e pedindo: “Me tira daqui! Compra uma passagem, mas me tira daqui!”.

Eu amei ver aquele Mineirão sofrendo chorando com a seleção. Não porque desejei isso, jamais! Mas porque sei que o mundo virtual azedo e sempre negativo é muito mais virtual do que real.

Eu não consegui chorar ainda. Porque toda vez que chego perto disso, alguém transforma minha tristeza em raiva com algum deboche ou comentário negativo.

Não foi engraçado.

Se não por David, Julio, Neymar e Fernando, pelos milhões de crianças que como eu e vocês viveram isso um dia tendo como principal objetivo da sua vida “ser campeão”.

Agora nossos objetivos e deveres são outros. E se eu pudesse, trocaria todos eles pra viver apenas o sonho de ser campeão. Foi o que fiz por 30 dias.

E até domingo eu espero conseguir chorar tudo que ainda não tive tempo, entre textos, compromissos e discussões filosóficas sobre o futuro do futebol.

Mas juro, o que mais me machuca não é a derrota, os 7×1, nem mesmo se a Argentina for campeã no Maracanã domingo. O que está me judiando é ter que me resguardar pra não ver brasileiros rindo de brasileiros.

Isso pra mim é insuportável. Mais do que qualquer título rival ou eliminação humilhante.

Eu só não queria que ninguém desse risada de eu não ter realizado o sonho de ver o Brasil na final com meu pai.

O futebol não é nada além de uma desculpa para reunir pessoas, explorar sentimentos e perder o senso do ridículo por alguns minutos.

Eu não quero sua audiência falando que avisei que perderíamos. Eu queria a sua audiência pra chorar comigo num texto do hexa.

Tá doendo. Vocês não tem idéia do quanto ainda dói. Mas eu juro que faria tudo de novo. E farei, porque durante a Copa, num dia qualquer, prometi pra mim mesmo que não deixaria de ser esse idiota apaixonado por futebol que ainda sou.

Eu ainda vou escrever o post do hexa.

abs,
RicaPerrone

O jogo que não aconteceu

Passadas muitas horas do fim da tragédia, consegui sentar e ver o jogo. Na verdade vi 28 minutos porque além daquilo não há nada, apenas uma interminável partida que se arrasta esperando a confirmação oficial do óbvio.

Eu não acho que o Felipão tenha acertado, mais longe ainda que ele seja menos competente do que sempre foi.  Nem desconsidero tudo que vi nos últimos 27 jogos da seleção no comando dessa comissão técnica e com quase o mesmo elenco.

Vi raça, muita vergonha na cara, um resgate foda da relação com o povo e nada disso é acaso. É trabalho.

Não, eu não gosto da forma que a seleção joga. Mas eu não me sinto no direito de achar absurdo que joguem assim no país onde cobra-se apenas resultado e que se exalta, por exemplo, o Muricybol sem “poréns”, desde que ganhe.

O Brasil jogou 20 minutos iguais contra a Alemanha. Quando a segunda bola entrou, diga-se, no segundo chute a gol deles, o que aconteceu naquele estádio é um segredo que não será justificado jamais e que ficará entre quem estava lá dentro.

Aquela bola na rede teve um impacto emocional em todas as pessoas daquele estádio incomum, indescritível, pouco provável que o futebol possa repetir um dia.

Era um alerta de “acabou” em meio a todo entusiasmo que criamos desde 2013 onde o mesmo time, sob o mesmo esquema tático, nos encheu de motivos para tal.

Agora nada presta. O que também comprova a incoerência e a necessidade de radicalizar dessa gente.

Não houve um jogo de futebol ontem onde pudessemos avaliar tática, técnica, alterações, posicionamento, nada disso. A Alemanha não faz 3×0 na seleção brasileira num jogo comum nem se jogar 20 vezes. Mas jogando aquela de ontem, e só aquela, faria.

Por 10 minutos ninguém, nem jornalistas, torcedores, treinador e menos ainda o time, conseguiu entender o segundo gol e como reagir diante dele. Houve uma pane, 6 minutos, e uma história manchada.

Não teve jogo pra ser analisado. Acho qualquer comentário tático/técnico sobre este jogo especificamente quase covarde.

Erramos por sermos, talvez, oposto ao time de 2006, emotivos demais e ligados demais ao objetivo deste trabalho.  Queriam demais, se perderam no processo não por esse ou aquele motivo em especifico, mas porque não soubemos equilibrar euforia, cobrança e rendimento.

Doeu pra caralho.  Eu nunca imaginei viver aquilo e depois conto com mais calma o que aconteceu, como vi, pra onde fui, etc.  Só quem estava lá consegue ter a dimensão do susto que nós levamos e da forma que reagimos.  Só quem viu as crianças chorando pode imaginar o que o time sentiu.

Faltou alguém cair. Faltou o jogo ser parado, uma briga, duas bolas em campo. Mas nem isso, onde Felipão é mestre, conseguimos ter cabeça pra fazer.

Eu nunca mais vou sentir o que senti ontem naquele estádio. Tanto que não suportei e sai, sem rumo, sem critério, surdo, até chegar no Rio de Janeiro quase sem saber como.

Não entro no twitter e no facebook desde então meramente para não perder a fé que tenho no meu país e nas pessoas. Não suporto ver brasileiros rindo de brasileiros, ou ignorando a dor de milhões de crianças em troca de um “eu avisei” sorrindo de canto de boca.

Fomos a semi e, como acontece em quase todas as copas, ou somos finalistas, ou perdemos pra um deles.  Humilhante, inesquecível, catastrófico, mas ainda assim só um jogo. Ou melhor, nem isso. Só um surto.

Na alegria e na dor, na saúde e na doença, até que a morte os separe.  Lembra?

Tamo junto. Sábado tem mais.

abs,
RicaPerrone

Não deixe o samba morrer

Nosso garoto nasceu pobre, cresceu magrinho jogando bola na terra. Driblava pedras, fazia dos chinelos as traves e sorria enquanto tentava ser “diferente”.  Vocação para protagonista não aceita desaforo.

Nosso garoto é bom de samba. Toca todos os instrumentos e enquanto isso ainda dança e sorri. Apaixonante, carismático, único.

Um dia alguém disse que era feio sambar. Que era uma música pobre e que bom mesmo era tocar saxofone.  Alguns rejeitaram, outros acreditaram, mas nosso menino foi lá experimentar.

Tocou. Aplaudiram. Ficou.

Aprendeu a ser parte de uma orquestra que erra pouco. Que repete as músicas do passado, que nada compõe, mas que sempre entrega o combinado.  No samba ele improvisava, errava, recomeçava, ria, se vestia como queria e tocava o instrumento que bem entendesse.

Barça e MilanAgora ele é saxofonista. Anda de terno, ganha muito, sorri pouco.

Veio a uma festa em sua antiga comunidade e logo estranharam sua roupa. Ainda assim, o receberam como o menino de antigamente.  Mas ele já não pertencia a aquele lugar. Estranhava o cheiro, a forma de falar, o gingado e a alegria a troco de nada.

Lhe deram uma platéia, um pandeiro e uma roda de samba com colegas que jamais tinha tocado junto. E ele não soube se virar.

Vaias, frustração, e o pior: Ele vai sair dali e vai pra casa, que fica muito longe daquelas pessoas que ficaram sem samba no domingo.

Ele até se importa. Mas mesmo assim o diagnóstico do dia seguinte não é que deveríamos tê-lo mantido no samba, mas sim que faltou aos outros mais instrumentos para uma orquestra de música clássica no meio da favela.

Aí não adianta reclamar.

“Aquele neguinho que andava 
Descalço na rua e ao leo 
Assobiando beethoven, chopin 
Porém preferindo noel …”

Vou seguir sambando. Aceitando talvez um instrumento novo, uma roupa melhor, quem sabe até um palco. Mas ainda assim, sambando.

Quem tem vergonha de onde veio não vai a lugar algum.

abs,
RicaPerrone

#TamoJunto

Meus craques, através desta simples campanha gostaríamos de passar pra vocês que além de resgatar nossa paixão pela seleção, conseguiram também unir novamente torcidas rivais por um único objetivo.

Duvidam?  Fizeram vídeos pra provar a vocês o quanto confiamos e que por vocês #TamoJunto !  Sem clube, sem cores. Todos com vocês.

Boa sorte, seleção!

abs,
RicaPerrone

Acéfalos

Ah, o charmoso estadual do Rio.  Para míseras 12 mil pessoas, cobrando entrada de cinema em sala VIP a mais barata das entradas, numa fórmula estúpida de um torneio falido.

Quem será o gênio que decide isso?  Não mais inteligente que quem assina e concorda, diga-se.  Ou, daquele que assina, concorda, vê a merda que fez e cobra caro pra que mais gente vá cheirá-la.

É inacreditável.

Mas teve jogo. E o problema persistiu. Se faltou cérebro pra quem o organizou, idem pra quem o disputou.  Muito atacante, volante, pouca gente que sabe jogar futebol.

Douglas e Conca.  Simples: Marque-os e teremos um festival de bicos pra frente e cruzamentos.

São as únicas duas peças de armação em campo. Num jogo de decisão, com cara de coletivo, futebol de muito mais tensão do que qualidade.

Melhor pro Flu, é claro. Joga pelo empate a próxima.  Mas o Vasco não jogou mal. Ao contrário, acho até que melhor que o Tricolor.

Fez o gol de empate numa jogada onde os 3 que entraram no segundo tempo tocaram na bola. Prova que Adílson mexeu bem, e também que escalou mal. Escolhe aí.

Todo espetáculo feito para um público cai de nível quando não tem o público. É um circulo, não acaba. Sem qualidade, sem público. Sem público, pior a qualidade.

A roda vai travar e virar ao contrário se conseguirmos encher o estádio a 10 ou 20 reais. Não esperando que o Pedro Ken passe a jogar a bola do Juninho.

Mas pra entender essa lógica é preciso mais do que “um meia de ligação”. Dentro e fora de campo.

Um Vasco e Fluminense para esquecer, ensinar e rever.

abs,
RicaPerrone