Carnaval

Quando simplesmente não funciona

Quem diria que o samba, um dos mais belos do carnaval, nao aconteceria?  Quem diria que com 34 graus em plena madrugada a escola entraria na avenida morta pela manhã?  Quem diria que a Grande Rio atrasaria o desfile?

Enfim. As cotas de emoção da Mocidade foram gastas pelo caminho.

O processo até o carnaval 2018 parece ter sido muito mais importante que o desfile em si. A escola se reinventou, trouxe o povo de volta, pisou grande na avenida e fez um bom desfile. Mas passou. Só passou.

As 5 da manhã de domingo a concentração da Mocidade era de pessoas cansadas.  Foi um calor infernal, uma demora sem fim e naturalmente a escola sentiu e entrou na avenida bem menos forte do que até mesmo o ensaio técnico.

A força estava ali, no chão, no resgate. E a Mocidade passou bonita, tendo que explicar suas alas de leitura muito complicada pra qualquer cidadão não familiarizado com a Índia e as relações com o Brasil. Resultado um publico que assistia também morto de cansado, sem grandes manifestações,

Embora seja sim uma candidata, é uma candidata que pode disputar por “errar pouco”.  Trabalho bem feito, bem conduzido. Mas sem brilho.  O que esperava da Mocidade era exatamente a explosão que não aconteceu.

Sim, sai meio frustrado da Sapucaí. Mas não pelo que a escola apresentou. Pelo que eu esperava que ia acontecer. O samba não vingou, o povo não cantou, a escola passou.

Não tem muito o que se fazer . Foi tudo bem feito, mas por algum motivo não explodiu.

Odeio desfiles técnicos. A Mocidade fez um ontem.  E ainda que tivesse feito, teve problemas na evolução.  Talvez porque o forte desse desfile não era pra ser a técnica, mas sim a pegada. E a pegada foi muito prejudicada pela hora, pelo calor, etc.

Valeu! Mas pra mim, seja qual for o resultado, o que a Mocidade fez em 10 meses de trabalho foi muito melhor do que ela colocou na avenida.  E eu honestamente prefiro viver carnavais com menos notas 10 invadindo a Vintém e chorando em ensaio do que levantar caneco porque “errei pouco”.

Salve a Mocidade! Foi um grande ano!

abs,
RicaPerrone

Os mitos, as lendas e os clichês

Há uma tendência em rejeitar e contestar os maiores mitos do país. Talvez o ser humano não saiba lidar com o inatingível, talvez seja mero “clubismo” de competir contra ele. Mas eu sou daqueles caras que adoro a Mangueira, o Corinthians, o Flamengo, o Rio de Janeiro…

E então voce me perguntará: “Voce acha que o Flamengo merece ser o maior time do Brasi? O Time X tem mais titulos…”.

Foda-se.

As lendas, os mitos e os clichês cercam nossa vida. Quando não fazem mal, que mal tem?

“O Zico não é tudo isso”.  Qual problema dele ser?  E se eventualmente ele não for? Qual necessidade de ser desmistificar uma lenda que não faz mal e só promove o tema?

A Mangueira carrega sobre seu ombro o rótulo de “maior escola de samba do planeta”, que ela mesma se deu. Mas ela é. Então, foda-se.

“Ah mas eu prefiro a Mocidade”. Tá, eu também. Mas jamais a minha escola causará no brasileiro a mesma coisa que causa o locutor quando ele diz: “vem aí Estação Primeira de Mangueira”.

Qual o problema com a democracia corintiana?  “Ah não foi bem asssim”.  A quem interessa a verdade que não acrescenta e diminui a historia contada?

Deixa ser.

A cultura brasileira passa por Mangueira, Flamengo, Corinthians, Rio de Janeiro.,.  Goste você ou não. Te agride? Não. Te diminui? Não.

Eu adoro ter uma escola como a Mangueira pra disputar com a minha. E sim, ela é maior que a minha. Como Flamengo e Corinthians são maiores que o meu time, tal qual o Rio de Janeiro será sempre mais “a cara do Brasil” do que minha cidade.

E veja que mesmo não sendo nem Flamengo, nem Corinthians, nem Mangueira e nem carioca, não consigo encontrar qualquer problema em conviver com estes clichês e lendas que fazem deles nossas referências.

Quando a Mangueira pisa na avenida, é diferente.

Quando o Flamengo enche o estádio, é diferente.

Quando se é campeão pelo Corinthians, é diferente.

Visitar o Rio de Janeiro, é diferente.

Talvez não seja melhor. Talvez não seja pior. Mas se pra você é tão “foda” ir na Torre de Pizza, ver o Barcelona jogar, ir a Paris, porque diabos você tenta se esquivar dos seus pilares lendários?

A Mangueira fez marchinha. Entrou na Sapucai cantando cabeleira do Zezé em pleno 2018 onde os chorões ganharam mais voz que os seres humanos normais. Meteu o prefeito de Judas e mandou recado sem se preocupar se podia.

Sabe porque ela fez isso? Porque é Mangueira.

Outra não faria. E se fizesse, apanharia.  É direito conquistado.  Exceção cultural histórica.

Foda-se o que você acha. Sua raiva só confirma a lenda.   E eu adoro competir com a Mangueira, porque ganhar dela me faz ainda mais especial. E perder, normal.

abs,
RicaPerrone

O direito, a coragem e as consequências

É assustador no Brasil que alguém banque o pensa e tome um lado. Uma pena, mas é um país de covardes e isso se nota na medida em que 100% da verba publicitária está voltada para quem não acha nada sobre porra nenhuma.

O carnaval é uma festa popular. Cabe dentro dela criticas geniais como a da Mangueira pro prefeito traíra que prometeu uma coisa, foi eleito e mudou de idéia. Cabe toda posição política que bem entender. Aliás, entendo por país livre você poder ser o que bem entender.

Tuiuti fez na avenida o que Globo, Veja e 99% dos veículos de comunicação não tem peito pra fazer: assumiu quem é.

Gosto? Muito. Acho maravilhoso a escola me dizer quem ela é e me dar o direito a odia-la, por exemplo. Como ontem ela se tornou a escola de milhões de esquerdistas pelo país. É um conseqüência à coragem.

“Ah mas ela falou mal do Temer”. Não, caras. Não é isso.  Enorme parte das pessoas não entendeu que ela ser contra reforma trabalhista, por mais limitada que seja a concepção do que se está falando, é um direito dela.  O ponto foi uma ala no fim do desfile.

A ala disse claramente e sem o menor pudor que quem bateu panela ou se manifestou de verde amarelo contra a Dilma foi manipulado por alguém.  Além da alusão ao palhaço no nariz deles.

Em resumo: Se você foi a favor da saída da Dilma e protestou, você é um palhaço manipulado na opinião da Paraíso do Tuiuti.

Eu gostaria honestamente que a Globo falasse que odeia o Bolsonaro. Seria mais honesto do que fingir imparcialidade por exemplo e ter seus lados.  A Tuiuti fez, e agora vem a separação das coisas.

Direito dela em fazer. Corajoso se posicionar. E agora aguenta o tranco porque chamou enorme parte da população de palhaços manipulados. Tem uma reação. Ninguém dá tapa na cara de ninguém e sai andando. A vida é mais prática do que pregam os filósofos do “anti ódio” que odeiam quando alguém não lhes dá o status de intelectual.

A Tuiuti pode se tornar uma escola odiada. Eu particularmente, como fui chamado de palhaço pela escola, tenho enorme antipatia a partir de agora. É a conseqüência natural de quem se posiciona. Você pode se posicionar estando de um lado e/ou agredindo o outro. Ela fez os dois.

Aguente  a reação ao seu direito de “ofender” um lado.

Prefiro um inimigo declarado do que um “amigo” cuzão.  E a Tuiuti escolheu seu lado. Não é o mesmo que o meu. A respeito, embora ela não tenha respeitado quem pensa diferente dela. Mas … se cair….  sim, confesso, vou rir. Simplesmente porque é também meu direito reagir a “ofensa” deles.

E nos 3 casos, tanto da postura quanto na coragem e na reação, é preciso agir mais naturalmente do que as pessoas agem. As 3 coisas fazem parte da vida todo dia, em todo lugar.  Mas entendo que se postar, peitar uma posição e arcar com consequências pelo que pensa não são 3 hábitos brasileiros.

A Tuiuti será esquecida amanhã cedo. É uma escola pequena e seu momento de glória foi “atacar” alguém.  Ainda assim, agredido pela escola na condição de palhaço manipulado, eu prefiro um “vai tomar no cu” do que “tem gente que poderia tomar no cu hein”.

Então… foda-se a Tuiuti!

abs,
RicaPerrone

A campeã do carnaval 2018

Domingo que vem haverá o desfile formal para o público em geral e jurados.  Talvez eles gostem, talvez não. Pode ser que o merecido título de 2017 venha em 2018 na quarta-feira de cinzas e não descobrindo um erro grotesco pelas justificativas depois.

Pode ser que a gente faça tudo errado no dia. Pode ser que a gente arraste a Sapucaí.

Pode ser.

O que já não pode ser é um fracasso. O que não será é um ano comum. E o que ninguém poderá nos tirar é a conquista do mais importante título do carnaval 2018:  pisar na Sapucaí como Mocidade.

Em 2017 fomos “surpresa”.  Ninguém achou que tão rapidamente viríamos de décimo pra campeão.  Em 2018 entraremos novamente como Mocidade. A favorita.

Foda-se se aumenta a pressão. Nós vivemos de favoritismo. Nós quebramos a banca do carnaval quando as mais tradicionais mandavam sozinhas. Nos revolucionamos, paramos a bateria, demos a ela uma rainha, enfiamos luzes e neon na festa e através do nosso líder criamos Liga, sambódromo, etc.

O carnaval é o que é hoje pela incrível história da Portela, da Mangueira, Estácio, Império, mas com a indispensável grandeza precoce da Mocidade. E quando ela é anunciada e o público não espera a campeã, algo de muito errado acontece.

Eu fui na Vintém. Nunca tinha ido. Vi o povo nas ruas invadindo a quadra antiga, a bateria espancando os instrumentos, a comunidade chorando e pulando sem ouvir o samba que era abafado pela bateria e a falta de equipamento de som.

Sambavam e cantavam se saber o trecho que a música se encontrava. E pulavam felizes, orgulhosos, como quem “volta pra casa”.

E não me refiro a voltas pra quadra não. Me refiro a ver a rua tomada, as pessoas da comunidade abraçando a escola, orgulhosos tirando suas camisas do armário e correndo pra dizer que “sou Mocidade”.

É ver o Dudu, filho do Coé, assumir a bateria do Andrezinho, filho do mestre André, e levar o trabalho ao “Dez!”novamente.  É ver as pessoas ostentando o enredo, ver “namastê” ser palavra comum em Bangu, o Marino e o Wander conduzirem a escola enquanto cumprimentam todos que os viram crescer a sua volta.

É a bateria na rua com os pais, filhos e irmãos do percussionista na calçada orgulhoso.  Porra, neguinho! “Meu pai é da bateria da Mocidade!”.

Eu não tenho um passado na Mocidade pra resgatar, contar ou me emocionar. Sou desde 1985, frequento desde que mudei pro Rio. Mas por tudo que vivemos esse ano, da apuração sofrida, ao resultado injusto corrigido, passando pelos ensaios de rua, a retomada da Vintem, a festa no campo de Golf até o ensaio técnico arrebatador de ontem….  o que os jurados vão achar é só um detalhe.

Quando a escola apontar na Sapucaí domingo, todos saberão quem tá entrando, se levantarão pra ver a possível campeã e esperar muito de quem sempre entregou algo mais.

A zona oeste vai ligar a tv e chamar de “minha escola”  de novo. E se isso vale menos que a opinião dos jurados, eu não sei mais pra que se faz carnaval.

Agora sim te conheço. Agora sim sei quem você é. E se eu já te achava tudo aquilo antes, hoje nem sei dimensionar o que sinto ao te ver passar.

Salve a Mocidade! O carnaval já valeu a pena.

abs,
RicaPerrone

O dinheiro é o menor dos problemas

O milhão a menos de cada escola é um problema na crise? É. Mas esse não é o grande problema da crise entre prefeitura e escolas de samba.

O problema é o caráter. A forma. A real intenção. A falta de critério.  O lado pessoal e religioso acima do cargo.

Crivella é um religioso fanático, daqueles que deviam ser proibidos de ter qualquer cargo sob o argumento de falta de lucidez. A fé é um direito, não um dever, menos ainda uma qualidade.  Crivella pode acreditar em Duendes se quiser, desde que não faça uso de cargos públicos para criar aldeias de Duendes no centro do Rio.

Os projetos voltados para a igreja evangélica dele seguem voando. Todos bem apoiados, patrocinados.  Pra você ter idéia do quanto é covarde, há um filme de 16 milhões de reais sobre a vida do Edir Macedo que está sendo noticiado pelo site no link como sendo apoiado pela prefeitura do Rio. Ou seja, vida de bispo agora é mais importante pra cidade do que o desfile das escolas?

Mas nem isso me revolta. O que me deixa puto é o uso da paixão alheia para ganhar voto. E usar paixão, fé, má fé, é especialidade desse tipo de gente, convenhamos.

O cara vai lá e promete pras escolas que não vai mexer. Que vai apoia-las. A escola apoia e carrega com ela uma comunidade, a dona Maria, que faz fantasias. O seu José, que vive de vender latinhas na porta dos ensaios, entre outras dezenas de milhares de pessoas envolvidas nisso diretamente.

“Ah mas a contravenção…”, pára! Deixa de ser idiota. O fato de uma ponte ser superfaturada não impede você de passar por ela. A escola de samba tem muita coisas boas por trás dela para focar no fato dela ter apadrinhamento histórico com contraventores.

Mas convenhamos, não precisa ser esperto demais pra imaginar que é o caminho natural de algo dentro da comunidade. As comunidades tem donos, o governo não enfrenta, logo, as escolas, filhas das comunidades, também terão seus apadrinhamentos. Vai ser hipócrita lá com o teu fornecedor de maconha.

Voltemos.

As escolas recuperam essa grana fácil.  Mas corta pra 2019, prefeito. Corta feito adulto. Honrando palavra, não misturando sua fé nas suas escolhas, nem mesmo tendo usado pessoas e agremiações para promover sua candidatura.

Senta bonitinho, pede desculpas, explica, procura alternativas. Não imponha comunicando a imprensa que mudou de idéia. É covarde. É sacanagem.

Tu pega um enredo feito e preparado em junho e avisa que ele perderá um dinheiro alto. Você quebra carro, trabalho de carnavalesco, planejamento.  Atrás de toda contravenção que vocês preferem envelopar o samba, há cultura, música, emprego, turismo, cartão postal dessa porra toda aqui.

Corta. Mas corta olhando no olho, falando de frente e não do gabinete depois de trair quem você usou pra ganhar eleição.

O Carnaval do Rio é minha paixão e passa LONGE de ser organizado e confiável como eu gostaria. Pra você ter idéia da zona, ingressos só em dinheiro.  Tudo vendido pelo telefone, por fax. Cheio de problemas.  Mas ainda menor do que o que ele representa de fato.

Por mim, prefeito, tu pode nem oficializar a festa.  Eu, e acho que ninguém do samba, daria a mínima pro teu aval. Aliás, tu nem apareceu esse ano lá.  Mas não usa as pessoas e a  paixão gerada por essas escolas para ganhar seus votos e depois pular fora falando em criancinha.

Tu não tá preocupado com o corte. É com o que não te agrada sua preocupação.

abs,
RicaPerrone

É tapetão!

Vou escrever antes para que após a decisão da LIESA não pareça um “deboche” menos ainda um “chororô”.  É preciso entendimento para julgar as coisas, ética para saber perder quando se perdeu de fato e humildade quando a justiça não está a seu favor.

A justiça é algo que todos nós pregamos desde que não nos leve a derrota.

Infelizmente o carnaval gera paixão semelhante ao futebol e por isso as pessoas são tomadas pelo sentimento e ignoram as coisas, deturpam os fatos e buscam um motivo para “fingir” estarem ponderando sobre algo que na realidade estão apenas torcendo.

O que houve de fato é simples explicar. Difícil querer entender.

A Mocidade mandou, como todas as escolas, o guia do desfile para os jurados. Houve alteração nele, dentro do prazo, tudo direitinho, com recibo da LIGA, etc.  A LIGA entregou uma cópia errada pro jurado. E pela informação errada ele descontou um décimo que não existia.

Nao é um erro de jurado. Não é um erro de interpretação. Menos ainda da escola. É um erro do carnaval para com a Mocidade. E isso foge de qualquer chororô convencional por nota. Existem diversas notas contestáveis ao longo da história que tiraram títulos para lá e para cá.  Mas isso é critério.

O que houve foi um erro da LIGA internamente que tirou um título da Mocidade. Título que não seria dividido, diga-se.

Como uma boa co-irmã do carnaval, a escola quer sua parte na receita de campeã e se possível o reconhecimento do título que conquistou sozinha. Mas por respeito, não sugeriu tirar da Portela. Sugeriu dividir com ela, porque mesmo sendo a campeã de fato, a Portela não tem culpa e também é vítima do erro.

Só que vitima a favor. E quando o erro nos ajuda, minimizamos o erro. Porque somos assim, passionais. E eu entendo, respeito, embora tenha profundo desprezo por figuras como a do carnavalesco sem raiz que debocha do “choro” sendo ele um dos maiores chorões desta avenida quando perde.

É tapetão! Dizem.

E se o título ficar em Padre Miguel, ainda assim, seremos lesados por não termos tido a festa na hora certa, da maneira certa e com o reconhecimento correto pelo trabalho bem feito.

Será tapetão?

Será.

Porque se há um carnaval onde a imagem dele será um tapete, é esse. Mas ele voava na comissão de frente com Alladin sobre ele encantando a Sapucaí e arrancando os gritos dignos, merecidos e por direito de “é campeã”.

Porque fomos. Somos. E o “tapetão” foi o maior momento do carnaval de 2017.

Abs,
RicaPerrone

… e acabou!

Amanheceu e havia carros demais na rua. Assustado olhei em volta e notei que as pessoas não estão mais fantasiadas. Já era 10 da manhã e ninguém estava bêbado cantando no metrô.

Na rua um apito. Paradinha?! Alô bateria! Não… era um guarda mesmo organizando o cruzamento.

“Oh o gás!”, ouvi! Me animei.  Era, de fato, o gás.  Que frustração!

Via pessoas de uniforme e sorria tentando tirar delas a verdade. Mas não, eram mesmo funcionários. Jurava que o frentista do Ipiranga era um folião fantasiado, mas não. Ele enchia o tanque e calibrava pneus. Ninguém leva tão a sério…

Ligo a TV: crise! Que crise? De que diabos vocês estão falando?  Temer. Quem é Temer?

Que horas são? Tô perdido.

– Dez! –  alguém responde.

“Puta que pariu, vamos voltar nas campeãs”, penso.

Porque as pessoas não estão mais rindo a toa? Cadê todo mundo? Porque não toca nada de fundo?

Abro a internet, não tem bloco, nem textão de nego chato reclamando do povo estar feliz em meio a tantos problemas no mundo.

Queria estar em Madureira. Lá, no “lugar dele”, deve estar maneiro mesmo sendo dia útil. Até porque desconfio que os resultados da apuração tenham indicado que em 2016 todo dia foi bem útil naquele lugar.

Me rendo. Vou trabalhar. Foda-se.

Superamos o Collor, a varíola, o PT, a poliomielite, o 7×1… porque não superaríamos esta segunda-feira?

Faltam só 339 dias para o carnaval 2018.

abs,
RicaPerrone

Pelos seus 452 anos

Querido Rio de Janeiro,

Eu tenho feito tudo que posso para amenizar as bobagens que vocês fazem por aí e dar à terra de meu filho a melhor condição possível. Infelizmente não posso fabricar dinheiro para cobrir rombos de políticos, nem mesmo mandar reforço policial para resolver o problema da violência.

Mas pude fazer o mar, as praias, os lindos morros que vocês tem e alguns traços dessa gente que destoa da humanidade pelo sorriso estampado.

Nestes 452 anos, pouco tenho a oferecer após toda a paz olímpica e na Copa. Mas não vou deixar vocês sem “uma lembrancinha”.

É carnaval, sua semana favorita. Lhes mandei de volta Portela e Império Serrano. De quebra, devolvi a Mocidade ao topo, até em virtude de um meio ateu chato pra caramba que só lembra de mim em apuração, pênaltis e turbulência que tem aí. E é paulista o desgraçado.

Enfim.

Não pude conter os problemas, a violência, as coisas todas que fazem vocês teimarem com a minha vontade e não permitirem ser o Rio de Janeiro o lugar mais perfeito do mundo.  Mas quero que vocês terminem as festas sorrindo, e por isso lhes mando também um maravilhoso Fla-Flu.

Vai ter gol de todo jeito, emoção até o fim, paz no estádio e eu mandei derrubar a liminar das torcidas. Onde já se viu? Separar vocês? Pelo amor de mim mesmo…

A discussões sobre o vencedor foi complicada aqui em cima. O João de Deus tem crédito, São Judas Tadeu também. Mas no final optamos pelo tempo de casa. E então, com todo respeito ao Flamengo, time de meu filho como já provado em outros tantos milagres,  mas dessa vez o aniversário é temático e “retrô”.

Acompanhando Portela e Império, além da vaga que dei ao Botafogo na Libertadores, resolvemos por ti, Fluzão.

Mas com emoção, empatando, sem ninguém sair chateado. Ok?

Feliz aniversário, Rio! É só uma lembrancinha, mas é pra tu não esquecer do quanto te amo e do quanto gostaria que você se cuidasse mais.

Ah! Quarta-feira lhes devolvo o Maracanã. É que não deu tempo…

Deus.

Grandeza não é só título

Como você qualifica alguém como “grande” no que faz?  Para um clube de futebol ou uma escola de samba logo atrela-se a títulos, e basta. Como se bastasse.

Nesta sexta-feira 3 Fluminense e Portela fizeram por onde carimbar seus nomes na história sem conquistar um campeonato. Na verdade domingo os dois podem acabar campeões, mas isso também não é o mais importante.

Tanto não é que falamos de dois incontestáveis gigantes que viveram série C e mais de 30 anos de fila, respectivamente. Ou seja, nunca foram só títulos.

A Portela chamou o Império Serrano, vizinho, para desfilar com ela. Afinal, são do mesmo bairro, viva a “comunidade”!

E o Fluminense abriu mão do mando de campo de torcida única para brigar pelo direito de ter ali a torcida do Flamengo, que amanhã será a dela, evidentemente.

Mas não é qualquer um que consegue enxergar que os papeis mudam mas o erro permanece atingindo a todos. É preciso ser maior do que a conquista. Falamos de Fluminense e Portela, ambos maiores do que os canecos conquistados e/ou em disputa.

Haverá, é claro, aquele torcedor mais doente que acredita que “o Flamengo não faria então tem que jogar com torcida única e bla bla bla…”, e eu até meus 15 anos pensaria parecido. Depois disso já acho caso de paixão descontrolada mesmo.

Hoje, o Flamengo. Amanhã, você. Então, a briga não é pela torcida do Flamengo ou do Fluminense, mas pelo direito de preservar as tradições e não fazer mais alguma coisa do nosso futebol se perder com o tempo.

A torcida única é o atestado de incompetência do estado e nós não podemos concordar com isso. São 30, 40 os marginais. Não existe qualquer lógica em punir 40 milhões por eles.

Hoje o futebol respirou aliviado. O Fluminense soube ser maior do que um campeão, e a Portela explicou com uma atitude simples porque JAMAIS escolas de samba podem ser torcidas organizadas.

Abs,
RicaPerrone

Eu preciso falar de você

Não vou conseguir fazer uso de um personagem ou de algum detalhe para fazer uma crônica bonita a seu respeito. Se o fizer, eu choro de novo. E se eu chorar de novo, não consigo retomar meu trabalho após 5 dias onde só conseguia pensar em você.

Mas eu preciso escrever alguma coisa. Como meu coração não foi alfabetizado e é burro de doer, escrevo eu mesmo em seu lugar.

Te ver passar grande de novo foi uma das melhores sensações que já tive. Foi como ver um filho querido acidentado voltar a andar. Era como uma ressureição de quem nunca morreu, sei lá.  Mas eu precisava olhar em volta e parar de pedir aplausos pra você. Queria vê-los surgirem arrancados e não doados.

Não suportava mais o tapinha nas costas ao final do desfile e a frase “Até que foi maneiro”.  Maneiro é a Vizinha Faladeira, porra! Com todo respeito. Eu sou Mocidade, eu não faço carnaval “maneiro”.  Eu passo o rodo, carrego a avenida, escrevo a história e saio dali aos gritos de “é campeão”.  É assim que é.

No penúltimo ensaio eu encontrei Marquinho Marino, pra mim o maior responsável pelo desfile deste ano, e o abracei dizendo: “A gente volta entre as 6?”. Ele disse: “Entre as 3, Rica.”.

Daquele dia em diante eu não tive mais uma noite de sono completa sem pensar nessa possibilidade tão surreal há 14 anos.  Na concentração os rostos serenos, as fantasias em ordem, os carros prontos, nenhum problema.  Parecia outra escola daquela que vinha se apresentando.

E quando passou, eu não tinha visto.  Foi tanta adrenalina, nervoso, correria, vai pra concentração, ajuda a destaque, passa na frisa, camarote, corre pra dispersão, enfim… eu vi sem ver. E então olhava em volta pra saber o que alguém me dizia sobre o desfile. O Alex Escobar, da cabine da Globo, foi o primeiro a fazer um sinal pra mim que estava ótimo! Ele também é Mocidade.

Dali pra frente eu olhava meu whatsapp e tinha noção de que acertamos. Não era mais “valeu!”, era “caraaaaaalho!!! que desfile!”. E então eu sabia que não acabava ali. Mas nem no meu mais abusado sonho eu disputaria o título.

Até que no quarto quesito a Mocidade liderava e a quadra aparecia ao vivo na tv com as pessoas esperando o título.

Título? Não é possível.  É, sim.

Então parei de andar em círculos em casa e fui pra quadra. Enquanto eu dirigia as notas iam sendo dadas e faltando uma nota eu cheguei. Sabia que iríamos ser vice, o 9,9 já havia sido dado. Mas quando entrei ali esperava ver um velório pela “derrota” há instantes. Nada! Era um orgulho tremendo, uma bateria espancando os tambores e o povo gritando alto o samba do ano em que, de fato, “voltamos”.

A taça chegou, os diretores e membros da escola foram chegando. Abraços, sorrisos, alívio.

Não era uma festa de campeã. Porque não fomos. Mas há algo tão importante quanto o título que é ver sua escola passar e representar as pessoas e a sua história.  Eu prefiro um “circo místico” do que um irritante desfile técnico que nos leve a algum lugar de destaque.

O que pensam os jurados não é o mais importante. O que deixamos na avenida, sim.

E dessa vez, como há muito tempo não acontecia, deixamos saudades e não frustração.

Avisaram. “Sonha, Mocidade!”.  Sonhamos, acordamos, e continuamos sonhando.

Voltamos. Não apenas nas campeãs, mas a gerar o delicioso “lá vem ela” quando anunciada na Marquês.

Era pra voltar nas campeãs, pois “Cá estou”.

Refletindo a noite iluminada…
Voltando à nossa escola tão amada
Verde e branco, que orgulho! que saudade!

Cá estou
A Mocidade é a razão da minha vida
Mesmo distante pelo espaço e pelo tempo
A estrela brilha sempre em nosso sentimento

Cá estou
Vamos lá, a hora é essa de ecoar a nossa voz
Voltei pela Brasil, estou em casa!
Padre Miguel, Olhai por nós!
E a bomba explode em harmonia
Prazer de viver
Brilha no céu brasilidade
Até morrer sou Mocidade

Mocidade minha vida!
Ah, meu amor quanta saudade!
Cantar minha paixão na avenida

abs,
RicaPerrone