copa 2014

O jogo que não aconteceu

Passadas muitas horas do fim da tragédia, consegui sentar e ver o jogo. Na verdade vi 28 minutos porque além daquilo não há nada, apenas uma interminável partida que se arrasta esperando a confirmação oficial do óbvio.

Eu não acho que o Felipão tenha acertado, mais longe ainda que ele seja menos competente do que sempre foi.  Nem desconsidero tudo que vi nos últimos 27 jogos da seleção no comando dessa comissão técnica e com quase o mesmo elenco.

Vi raça, muita vergonha na cara, um resgate foda da relação com o povo e nada disso é acaso. É trabalho.

Não, eu não gosto da forma que a seleção joga. Mas eu não me sinto no direito de achar absurdo que joguem assim no país onde cobra-se apenas resultado e que se exalta, por exemplo, o Muricybol sem “poréns”, desde que ganhe.

O Brasil jogou 20 minutos iguais contra a Alemanha. Quando a segunda bola entrou, diga-se, no segundo chute a gol deles, o que aconteceu naquele estádio é um segredo que não será justificado jamais e que ficará entre quem estava lá dentro.

Aquela bola na rede teve um impacto emocional em todas as pessoas daquele estádio incomum, indescritível, pouco provável que o futebol possa repetir um dia.

Era um alerta de “acabou” em meio a todo entusiasmo que criamos desde 2013 onde o mesmo time, sob o mesmo esquema tático, nos encheu de motivos para tal.

Agora nada presta. O que também comprova a incoerência e a necessidade de radicalizar dessa gente.

Não houve um jogo de futebol ontem onde pudessemos avaliar tática, técnica, alterações, posicionamento, nada disso. A Alemanha não faz 3×0 na seleção brasileira num jogo comum nem se jogar 20 vezes. Mas jogando aquela de ontem, e só aquela, faria.

Por 10 minutos ninguém, nem jornalistas, torcedores, treinador e menos ainda o time, conseguiu entender o segundo gol e como reagir diante dele. Houve uma pane, 6 minutos, e uma história manchada.

Não teve jogo pra ser analisado. Acho qualquer comentário tático/técnico sobre este jogo especificamente quase covarde.

Erramos por sermos, talvez, oposto ao time de 2006, emotivos demais e ligados demais ao objetivo deste trabalho.  Queriam demais, se perderam no processo não por esse ou aquele motivo em especifico, mas porque não soubemos equilibrar euforia, cobrança e rendimento.

Doeu pra caralho.  Eu nunca imaginei viver aquilo e depois conto com mais calma o que aconteceu, como vi, pra onde fui, etc.  Só quem estava lá consegue ter a dimensão do susto que nós levamos e da forma que reagimos.  Só quem viu as crianças chorando pode imaginar o que o time sentiu.

Faltou alguém cair. Faltou o jogo ser parado, uma briga, duas bolas em campo. Mas nem isso, onde Felipão é mestre, conseguimos ter cabeça pra fazer.

Eu nunca mais vou sentir o que senti ontem naquele estádio. Tanto que não suportei e sai, sem rumo, sem critério, surdo, até chegar no Rio de Janeiro quase sem saber como.

Não entro no twitter e no facebook desde então meramente para não perder a fé que tenho no meu país e nas pessoas. Não suporto ver brasileiros rindo de brasileiros, ou ignorando a dor de milhões de crianças em troca de um “eu avisei” sorrindo de canto de boca.

Fomos a semi e, como acontece em quase todas as copas, ou somos finalistas, ou perdemos pra um deles.  Humilhante, inesquecível, catastrófico, mas ainda assim só um jogo. Ou melhor, nem isso. Só um surto.

Na alegria e na dor, na saúde e na doença, até que a morte os separe.  Lembra?

Tamo junto. Sábado tem mais.

abs,
RicaPerrone

Não deixe o samba morrer

Nosso garoto nasceu pobre, cresceu magrinho jogando bola na terra. Driblava pedras, fazia dos chinelos as traves e sorria enquanto tentava ser “diferente”.  Vocação para protagonista não aceita desaforo.

Nosso garoto é bom de samba. Toca todos os instrumentos e enquanto isso ainda dança e sorri. Apaixonante, carismático, único.

Um dia alguém disse que era feio sambar. Que era uma música pobre e que bom mesmo era tocar saxofone.  Alguns rejeitaram, outros acreditaram, mas nosso menino foi lá experimentar.

Tocou. Aplaudiram. Ficou.

Aprendeu a ser parte de uma orquestra que erra pouco. Que repete as músicas do passado, que nada compõe, mas que sempre entrega o combinado.  No samba ele improvisava, errava, recomeçava, ria, se vestia como queria e tocava o instrumento que bem entendesse.

Barça e MilanAgora ele é saxofonista. Anda de terno, ganha muito, sorri pouco.

Veio a uma festa em sua antiga comunidade e logo estranharam sua roupa. Ainda assim, o receberam como o menino de antigamente.  Mas ele já não pertencia a aquele lugar. Estranhava o cheiro, a forma de falar, o gingado e a alegria a troco de nada.

Lhe deram uma platéia, um pandeiro e uma roda de samba com colegas que jamais tinha tocado junto. E ele não soube se virar.

Vaias, frustração, e o pior: Ele vai sair dali e vai pra casa, que fica muito longe daquelas pessoas que ficaram sem samba no domingo.

Ele até se importa. Mas mesmo assim o diagnóstico do dia seguinte não é que deveríamos tê-lo mantido no samba, mas sim que faltou aos outros mais instrumentos para uma orquestra de música clássica no meio da favela.

Aí não adianta reclamar.

“Aquele neguinho que andava 
Descalço na rua e ao leo 
Assobiando beethoven, chopin 
Porém preferindo noel …”

Vou seguir sambando. Aceitando talvez um instrumento novo, uma roupa melhor, quem sabe até um palco. Mas ainda assim, sambando.

Quem tem vergonha de onde veio não vai a lugar algum.

abs,
RicaPerrone

Perdemos

image

O que sinto? Não sei explicar.

To sentado num aeroporto esperando o primeiro voo pra casa porque não consegui ficar no Mineirao. Porque não quis chorar na tribuna de imprensa, e sim, porque eu acreditava.

Porque não sei rir do meu irmão pela morte de nossa mae.

Não consigo me considerar superior ao ponto de achar graça da derrota e da tristeza dos meus amigos, vizinhos, afilhados, leitores, ouvintes, ídolos.

Porque somos todos culpados. Nunca dissemos “eles” pra falar do penta, porque vamos usar pra falar do pior dia da historia da nossa seleção?

Porque somos covardes e vamos dizer “eu avisei” ao invés de aceitar a dor e se permitir senti-la?

Foi uma tragédia. A maior que ja vi, e eu estava la. Ta doendo pra caralho e não me sinto apto a fazer avalicoes técnicas e táticas diante de algo tao imponderável, inesperado e ao mesmo tempo inexplicável.

Talvez você caia no primeiro papo que ouvir e ache que de fato somos piores que o Ira, e que tomar 5 gols em 18 minutos e nossa realidade.

Talvez lhe pareça tatico. Talvez a mesma imprensa que fez do futebol Parreira e Muricy um exemplo hoje covardemente cobre a falta de mais qualidade em troca do resultado.

Talvez.

A única certeza que tenho ainda com um no na garganta e que falhamos todos. E como somos brasileiros vamos discutir e culpar alguém da família pela prostituição da mais nova, ao invés de tentar tirá-la da zona.

Somos assim. Arrogantemente vira latas. Ao ponto de ver seu pais cabisbaixo e frustrado e encontrar forcas pra achar uma tese que nos isente de culpa e possamos apenas apontar o dedo.

Faca um bem pra você, pra seleção e pra nos enquanto nacao. Sofra essa noite.

Sofra muito. Porque nos perdemos. Não eles. Chega de “eles” no Brasil.

Ah! Quase me esqueci. Parabens Alemanha. Fizeram o que nunca ninguém conseguiu fazer.

Abs,
RicaPerrone

#SomosTodosCambistas

Eu tenho muitas ressalvas quando um grupo de brasileiros reclama dos nossos governantes. Não porque discordo deles, mas porque normalmente duvido que eles tenham sido eleitos por qualquer motivo que não a mera semelhança com seus eleitores.

A Copa chegou. Era tudo mentira que ia dar errado, que seria o caos nos aeroportos, etc, etc, etc. Como sempre, pra reclamar, mentimos por esporte. Mas pra olhar pros nossos próprios erros, sorrimos malandramente com orgulho de levar vantagem.

Quantas vezes você leu ou ouviu alguém reclamar do absurdo que é ter que pagar o dobro ou triplo para ver um show ou evento esportivo qualquer nas mãos de um cambista?

Pois é.

A Copa chegou, deram nas mãos da classe média alta brasileira milhares de bilhetes de 250 reais que, no mercado paralelo, ilegal, como cambistas que tanto reclamam, poderia valer até 3 mil reais.

E desde então sabemos qual o preço da nossa hipocrisia.  Por este valor, convenhamos, não dá pra recusar.  E assim seguimos, olhando em volta e vendo quase todos os nossos amigos fazendo exatamente o que reclamamos durante a vida toda.

Revendendo mais caro pra tirar vantagem.

E aí? Somos todos cambistas?

Sim. Quase todos. Basta uma oportunidade para mostrarmos que não estão eleitos por acaso.  Nossa diferença pra eles talvez seja a falta oportunidades para “se dar bem”. Pois quando surge, estou pra ver quem recusa.

Amigos ganhando dinheiro em cima de amigos. Sob o argumento de que tem que pagar mais caro porque só tem o jogo que querem nas mãos de outros cambistas.  Lógico, quase justo.

Daquela linha de roubar acessório de carro semelhante ao seu pra repor o que te roubaram.

No final, dá no mesmo.

Adianta viver pedindo pra mudar o saco se a farinha é a mesma?

abs,
RicaPerrone

A Copa no Metrô

Já próximo a embarcarmos para o Maracanã, dois franceses ansiosos com a decisão contra a Alemanha cantavam ao meu lado.  Mas não músicas de futebol, canções mesmo. Eu não entendia nada porque era tudo francês, claro.

Até que um deles olhou pra mim, viu que eu era brasileiro, e tentou ser “legal” cantando algo daqui.  Pensou, arriscou começar uma, não soube a letra, pensou mais 4 segundos e soltou: “Brincadeira de criança… como é bom! Como é bom!”.

Eu cai na gargalhada. Molejão internacional. Eles não sabiam se eu ria por achar bom ou ridículo, então, pararam.  Me apontaram como quem pede ” agora é sua vez”.

Disse que só sabia “Ne Me quitte Pas”.  Eles aprovaram.

Mas não acaba. Já chegando ao estádio, um grupo grande da torcida da Alemanha foi chegando na mesma direção para desembarque no Maracanã. Dá aquela tensão de 1 segundo pelo hábito que temos em estádios, mas logo lembramos que é Copa.

Começaram a cantar as músicas deles. Os da Alemanha, as deles. E juntos desembarcaram na rampa que leva ao Maracanã.

Quando virei pra ir a entrada de imprensa, os franceses seguiram reto pro estádio. Dei tchau, desejei sorte, e animados, sem saber que a Copa deles terminaria dentro de mais 2 horas, mandaram um “Pre-pa-ra”, com dancinha.

Meu repertório francês para retribui-los tinha acabado. Graças a Deus.

abs,
RicaPerrone

Estréia marcada

É incontestável o poder de reza do tal Papa.  Desde que assumiu, até a seleção argentina consegue ir longe.  Há 24 anos sem chegar nas semi, conseguiram sem ainda ter um jogo de estréia.

Se há uma trave abençoada é a deles.

Depois, jogando bem pouquinho, só enfrentaram adversários absolutamente insignificantes no cenário internacional.

Mas chegaram. E aqui, convenhamos, não jogam por uma Copa, mas sim por um atalho.  Eles sabem que jamais poderão discutir futebol com brasileiros e levar vantagem. Mas tal qual o Uruguai, também sabem que as vezes uma só vitória falará tão alto quanto todas as demais do adversário.

Uma Copa aqui, no Maracanã, vencida por eles, os colocaria num patamar bem menos “comum” que o atual.  Passariam a ter uma copa honesta (até aqui) e finalmente poderiam ter algo a nos jogar na cara.

A Copa das Copas é pra eles. Jogarão a vida, mesmo que até aqui não tenha sido testada.

Suiça, Bósnia, Nigéria eliminada, Irã, agora a Bélgica.  Vem aí a Holanda, cansa, talvez até em crise no grupo pelo polêmico ato do treinador no final da prorrogação ao trocar de goleiro. Mas, enfim, um adversário.

Nas últimas Copas toda vez que a Argentina jogou uma partida contra um grande, perdeu.

O Papa pode ser forte, mas não é Deus.

E Deus, vocês sabem sua cidadania.

abs,
RicaPerrone

Estatísticas da classificação

Exclusivo no blog aqui no Brasil, a OptaSports é a maior plataforma de estatísticas do mundo. E com ela tenho dados interessantes sobre os jogos de cada seleção na Copa. Hoje, claro, especialmente do nosso jogo.

E divido com vocês alguns dados interessantes.

Os jogadores pela ordem de aproveitamento de passes

Os jogadores pela ordem de aproveitamento de passes

Por onde mais atacamos - Equilibrio

Por onde mais atacamos – Equilibrio

Todos os passes errados da seleção no jogo

Todos os passes errados da seleção no jogo

Mapa de calor da seleção brasileira

Mapa de calor da seleção brasileira

Mapa de posicionamento médio do time

Mapa de posicionamento médio do time

Acabou!

Jefferson Bernardes/VIPCOMM

Jefferson Bernardes/VIPCOMM

Meninos, acabou!

Tudo que vocês tinham obrigação de fazer está feito. Precisávamos ganhar de quem nos parecia inferior, e ganhamos.  Tínhamos que ir as semifinais da Copa, e lá estamos.

Toda pressão de evitar um vexame acabou hoje em Fortaleza. Não há mais vexame.

Daqui pra frente vocês entram em campo pra buscar, não pra evitar.  Pisam mais firmes em busca de algo que dá prazer, não de uma tentativa desesperada de não ser um vilão nacional.

Vocês não serão. Mas podem ser heróis.

E se repetirem o primeiro tempo de hoje em 90 minutos, vamos ganhar da Alemanha e chegar na final. Se não repetirem, seremos competitivos. Mas hoje, tudo tinha que dar tão certo, os argumentos vazios estavam tão expostos, que até o Neymar não jogou nada pra matar a “Neymardependência”.

Nós podemos. Com ele, melhor. Sem ele, mais sofrido, mas nós podemos chegar.

Daqui por diante lhes desejo “boa sorte”. E daqui também agradeço pela classificação e o “dever” cumprido.

Sonhamos em poder sonhar até o fim. E até bem perto do fim já nos garantiram esse direito.

Chorem a vontade.  A obrigação acaba aqui.

Agora, enfim, divirtam-se! É sorrindo que somos melhores que os outros.

abs,
RicaPerrone