copa 2014

Cavalo de Tróia

Eu não conseguia me convencer que toda simpatia alemã para com os brasileiros e especialmente os rubr0-negros fosse de fato apenas uma jogada de marketing.  Até que um dia um amigo, Dirceu, usou o termo “Cavalo de Tróia”.

Pronto. É isso.

A definição mais brilhante é essa. A Alemanha está aqui simpática, “torcendo pelo Brasil”, vestindo a camisa do time mais popular do país, com elogios diários a tudo que é nosso nas redes sociais e até vestindo camisa de clube nosso pra passear.

Do caralho! Mas…

Então.

Simpatia é quase amor. E essa simpatia pode ser uma forma brilhante de não ser vista como ameaça e, portanto, ir fazendo seu papel de vilã parecendo amável e inofensiva.

A Alemanha, que respeito, gosto, até torço pra chegar, chegou.  E neste momento eu não vou mais cair no golpe mais antigo, famoso e simbólico do mundo.

O maior cavalo de Tróia da história do futebol já está na porta.  É melhor não deixar entrar.

Vou adorar aplaudi-los, só que em Brasília no sábado.  No Maracanã, domingo que vem, jogo eu.

abs,
RicaPerrone

Boa noite, seleção!

Boa noite, Oscar. Que amanhã você durma mais cansado, mas muito mais feliz. Que sua noite seja de ansiedade, não de tensão. E que você tenha muita certeza que se reapresenta no sábado.

Boa noite, Felipão.

Boa noite, David! Nervoso ai, irmão? Aqui tá foda. Mas é o frio na barriga que esperamos a vida pra sentir. Vai valer a pena.

Boa noite, Julio. Sai que é sua. Sempre!

Boa noite, Neymar! Espero que tenha passado a pancada. Não esquece de tocar o terror hoje na concentração pra quebrar qualquer clima mais pesado.

Boa noite, Daniel! Teu cabelo tá feio pra caralho, viu? Mas amanhã vai ter uma falta pra você cobrar daquelas que você não erra.

Boa noite, meu capitão! Quantas noites você dormiu sonhando em dormir essa?

Boa noite, meu lateral! Tão falando que é perigoso porque eles jogam pelas pontas. Perigoso é te deixar livre. Pra cima deles!

Boa noite, Hulk!

Boa noite, Fred! Agora é pra valer. Sabe aquele jogo que só os diferentes resolvem? Então. É seu.

Boa noite, Fernandinho!

Boa noite, Paulinho! É verdade que o James amanhã não pega na bola? Levei fé!

Boa noite. E acostumem-se. Noites anteriores a decisões nesta Copa vocês ainda vão ter mais 2 pra dormir.

Estamos com vocês.

abs,
RicaPerrone

Chora, capitão!

Eu não sei dizer o que pode e o que não pode.  Sei que todos tem o direito de achar o que bem entender sobre Thiago Silva contra o Chile.

Também tenho minha opinião e fiquei sim decepcionado com ele. Não por não ter batido o pênalti, achei até honesto ele assumir que não estava bem, mas pelo tanto que ficou nervoso na condição de líder do grupo.

Thiago não cometeu um “erro”. Apenas não reagiu bem a situação.

E sim, Zico não apenas pode falar como é a melhor pessoa do mundo pra falar sobre isso. Ele sabe o que vão fazer com Thiago caso ele seja humano e erre. Ou pior, sabe o que seria dele se perdêssemos por um pênalti que eventualmente alguém foi bater em seu lugar.

Zico paga até hoje pela má fé alheia e pelo ódio ao Flamengo.  Em qualquer raciocinio lógico Zico teria que ser exaltado por ter pedido a bola pra bater (2 vezes)  num jogo onde acabara de entrar e os medalhões pediram pra não cobrar.

Errou um deles. Mas bateu.

Thiago não bateu. E tem direito de não ter batido. Como tem a obrigação de aguentar a natural desconfiança sobre sua condição emocional após ter se afastado do grupo que lidera por ter ficado nervoso demais.

Porque diabos devo escolher entre dois ídolos e estar ao lado de um?  Trata-se de um Fla-Flu?  Não, mas já virou. E a partir de então toda e qualquer opinião baseada nisso deve ser ignorada. É só paixão.

Paixão que Zico e Thiago tem pelo que fazem e pela seleção, já que ambos sempre a representaram muito bem. Errando, acertando, sentindo a pressão, tentando de novo, ganhando, perdendo.

Mais Zicos, porque é preciso bater. Mais Thiagos, porque também é preciso aceitar suas fraquezas.

E mais verde amarelo, menos cores de clubes até 13 de julho.

Vai, Capitão! Tamo junto.

abs,
RicaPerrone

Dá pra mudar

Infelizmente não me sinto a vontade pra cagar uma regra sobre o psicológico de alguém sem conhecer tanto o assunto quanto a pessoa.  Então, me limitarei a discutir o que posso.

Porque é tão impossível imaginar uma seleção com nova formação? Qual o absurdo em pensar em Henrique pra vaga do Luiz Gustavo, por exemplo?

E será mesmo que jogar com 3 zagueiros é uma alternativa retranqueira?

O time do Brasil, ao contrário do que foi nas Confederações, tem jogado desta forma:


Com Hulk de um lado, Oscar de outro e o Neymar centralizado atrás do Fred buscando jogo.  Este desenho aparece inclusive no mapa de posicionamento estatístico das partidas do Brasil.

Como o Neymar busca muito jogo pelas beiradas, não tem meio campo. A bola é esticada pro Fred ou aberta pelas pontas. Sem Luiz Gustavo Felipão pode apenas trocar um nome ou mexer num sistema.

Abaixo o time com 3 zagueiros. Não resolveria todos os  problemas do mundo, mas ficaria menos previsível, daria liberdade aos laterais pra fazer a única coisa que sabem e empurraria Neymar e Hulk (ou Fred)  mais pro meio.

Gosto? Gosto sim.  Mas se você me perguntar o que eu mais gostaria de ver, talvez fosse o esquema abaixo.

Com 2 meias, 2 atacantes, 2 volantes, simples, sem delírios, esquemas mirabolantes e com bola no chão, que é o que nos diferencia.  Não suporto a idéia de apostar em bola aérea numa seleção que tem no improviso com os pés 90% de sua força.

Felipão não vai fazer isso. Por coerência, conceito, seja o que for. Mas quanto mais ele se aproximar disso, acho que aumenta a bolas nos pés, as jogadas menos diretas e um time menos previsível.

Prender o Oscar a uma ponta é desperdício. Ele sozinho no meio não aguenta.  É duro ser Felipão também.

Mas ainda assim, mais duro é ser adversário do Brasil.

E nós vamos passar pela Colômbia.

abs,
RicaPerrone

Os oito

Oito classificados para as quartas de final. Curiosamente os primeiros de seus grupos na fase inicial.

Comparei os números totais dos jogos de oitavas de cada um deles, claro que ponderando que alguns foram a prorrogação, outros não. Ainda assim, dá pra tirar alguma coisa.

Se não der, adicionei o mapa de calor dos times em suas partidas nas oitavas.  Todos dados exclusivos da OptaSports.

Mapas de calor:

O melhor da Copa

Tanto falaram que obviamente nos decepcionaram. É como um filme que investe milhões em propaganda. Por melhor que seja, será menos do que você espera se ouviu falar demais nele.

A Bélgica é uma seleção que tem perspectiva. Longe de ser uma nova potência, mas um time que poderia sim ser a surpresa da Copa.  Fez 3 jogos comuns, caiu no lugar comum, voltou a ser surpresa, jogou o que fez dela uma candidata a sensação.

Alguns times funcionam apenas quando não tem obrigação. Outros, por serem novos, não sabem lidar ainda com isso. Mas aprenderão.

A partida que os belgas fizeram hoje foi a melhor atuação que vi uma seleção ter nesta Copa. Pelo volume, pela forma de jogar, pela não limitação a uma só jogada, pelas mais de 30 finalizações em tempo normal, pelos dribles, a defesa e a forma com que empurrou o bom time americano na defesa.

Jogaram como nunca. Mas, como sempre, tiveram dificuldade.  O goleiro dos EUA foi o herói do jogo, talvez das oitavas. Mas em 30 bolas, ele fez milagre em algumas. Outras tantas foram mal chutadas mesmo.

Agora sim, a Bélgica é a sensação da Copa. Porque jogou um futebol leve, solto, pra cima e teve a mesma dificuldade que os que não jogaram nada tiveram. Mas, para sorte do futebol, também tiveram o mesmo final.

Estão dentro. E agora tentam tirar a Argentina.

Algo que só não acontecerá se as atuações dos dois times até aqui forem completamente ignoradas. Se for algo sequer parecido, a Bélgica é favorita.

abs,
RicaPerrone

Não foi uma entrevista

Quando Felipão chamou meia duzia de jornalistas num canto pra bater papo, ele não fez uma entrevista coletiva, nem mesmo abriu espaço para matérias exclusivas.  Tolo quem acha que isso foi pra dar preferência a um ou outro.

Se fosse dar, jamais chamaria gente da ESPN, jornais ou Fox, com todo respeito. O faria com Globo, Band e Sportv, que são os que de fato podem manipular a opinião da massa pelas audiências que tem.

Chamou os caras pra pedir ajuda.

Não tática, nada disso. Mas para aproximar. Tentar dizer pra eles que a pressão tá forte demais e, quem sabe, notando isso, pudessem diminuir as pancadas nos garotos.

Não adiantou. Quem não é inteligente o suficiente pra entender o futebol só resta entender “DE futebol”.

Ao invés de entender aquilo como uma aproximação e sim, um pedido de ajuda, alguns jornalistas optaram por colocar o jornalismo acima de tudo. Eu respeito, mas acho uma bosta.

Não era pra expor. Não era pauta. Não era pra isso. Mas e a vontade de ir a público dizer que “foi um dos 5 chamados”?  Irresistível ao ego que nos acompanha desde o diploma.

Felipão não chamou Globo e Sportv porque são canais que naturalmente, ou por contrato, jogam junto da seleção.  Outros, que por falta de contrato ou conceito jornalístico, jogam contra pra dizer “eu avisei”.

A seleção está pedindo força. É isso! Só isso.

Mas pedindo num país onde infelizmente ser “jornalista” é mais importante que ser brasileiro. Onde a seleção é a “seleção da CBF”, ou “time do Felipão”,  e não “nossa seleção”, como deveria ser.

As vezes acho que precisamos perder mais. Torcida coxinha é ingresso caro. Jornalismo coxinha e vira-latas é mera falta de inteligência.

Agora o Felipão sabe. Se não vai poder dizer: “Eles confiam em vocês!” na preleção, já pode encher a boca pra dizer: “Vamos calar a boca desses filhos da puta que acham que vocês não tem estrutura emocional pra estarem aqui”.

São menos bocas pra apoiar. Mais bocas pra calar.

abs,
RicaPerrone

 

A Copa que não queremos ver

“O futebol mudou”.

É incontestável. Na verdade, a falta de mudanças no regulamento fez com que o jogo mudasse e se adaptasse até chegar ao nível atual.  E hoje, reconheço, nem acho tão ruim quanto em outras Copas quando o 1×0 de bico pro alto e bola alta eram a única opção dos mediocres.  Hoje todos jogam pelo chão, errando menos, arriscando menos, mas numa intensidade muito maior.

Gosto? Não muito. Ainda sou fã do meia que pára a bola e olha pra frente. Mas hoje, se ele parar, vem dois e tomam a bola dele em meio segundo. O espaço acabou, a técnica não é mais nada sem força e velocidade.  Os três, aliados, no mesmo nível, formam um craque.

“Não tem mais bobo no futebol”.

Tem sim. Somos nós, comentaristas.  Repetindo frases feitas como essa o tempo todo e minimizando as coisas a quadros táticos e números.  Achando que desenhar um 442 encontra os problemas de um time que muda a formação 3 vezes por etapa de jogo.

O futebol é rápido, intenso, forte e a grande mudança não é nenhuma dessas. A confiança ainda é muito mais relevante que o posicionamento, ainda que façamos questão de não reconhecer.

Onde ontem se buscava o acerto, hoje vence quem minimiza o erro. E não me refiro a defesa, mas sim ao ataque.  Passes curtos, rápidos, previsíveis porém sem grande margem pra erro.

O jogador que arrisca um grande passe longo a cada 3 está fora do mercado. O que acerta 15 de 3 metros entre 15, é um grande jogador.

O jogo buscou nivelar o que era um baile de quem sabia jogar.  E diga, meu caro: Quem não pode aprender a correr e se posicionar? O futebol de hoje pede muito menos talento natural e muito mais disciplina.

E desde quando os craques eram craques por serem disciplinados?

Ao contrário. Eram teimosos, faziam o que dava na telha. Hoje, se fizerem, caem na base pra um grandão qualquer que toque de lado e não erre.

A Argélia não é melhor que a Alemanha. Nem o Chile que o Brasil. Menos ainda a Nigéria que a França.  Mas “ser melhor”, hoje, não tem a ver com técnica.

Há beleza nisso, se souber observar.  Mas há, também, um caminho sem volta em busca da mediocridade.

Que desde que competitiva, serve.

O vexame da Copa não seria a eliminação do Brasil, nem a Espanha, menos ainda a Alemanha.  Somos nós, comentaristas que não conseguimos até agora perceber o que de fato está acontecendo e continuamos prevendo o óbvio, tratando derrotas como surpresas em virtude de um tipo de jogo que permitimos tomar conta do  nosso esporte favorito.

Agora mudemos a forma de ver o jogo. Pois eles não vão mudar a forma de jogar.

abs,
RicaPerrone

Reconsiderando atuações

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Quando terminou o Brasil x México eu não entendi bem o que o Felipão queria dizer com “evolução”. Pra mim o time havia jogado mal e mesmo sob os milagres do goleiro adversário, tínhamos que ter feito mais do que aquilo.

Essa maldita mentalidade de achar que jogamos contra cones nos trai o tempo todo. Foi preciso a Holanda, até então “o time da copa”, quase perder e ser dominada pelo México para entendermos que não empatamos com um bêbado.

Na real, deixamos de sofrer 90% dos sustos que a Holanda sofreu. E se foi isso que Felipão teve como meta, em troca de achar um gol na frente, conseguiu. A bola não entrou por detalhe, a deles, por falta de chances.

A Holanda tem uma coisa que me agrada muito. Ela perde, perde, perde e não muda seu jeito de jogar. Isso é personalidade, o que aliás nos faltou quando “vendemos” nossa alma pro 1×0 de bola parada desde agosto de 1982.

O futebol corrige ao longo do tempo todas as injustiças que comete. E não são poucas.

A maior delas, no entanto, ainda está pra ser corrigida. Talvez seja agora, talvez mais pra frente. Mas a Holanda é o maior time do mundo que não ganha nada.

É maior que Uruguai, Inglaterra, França, Espanha e Argentina. Toda Copa revela jogadores, tem seleções marcantes e não consegue o “maldito” título por detalhes do futebol.

Torço pra Holanda pela dignidade de saber que caso não possamos sair desta Copa com a taça, que ela vá pra quem merece e de fato joga futebol.

O México criou uma seleção de futebol com a única intenção de encher o saco da seleção brasileira. E faz muito bem o que se propôs.

Já tá feito. Pode voltar pra casa.

abs,
RicaPerrone