Seleção Brasileira

Neymar, o capitão

Neymar é jovem, talvez nem tenha o perfil de líder que esperamos de um capitão. Daqueles que grita, que orienta, chama atenção.  Mas é “o cara”, pede pra ser, faz por onde e parece ter a mesma facilidade pra driblar situações fora de campo do que dentro dele.

Thiago é o zagueiro capitão ideal. Sério, joga uma barbaridade, em tese o típico dono da braçadeira.  Mas aí surta num jogo da Copa, sente o peso. Passa o tempo, muda o treinador, ele se machuca, sai e quando volta dá pra imprensa de presente uma “pequena crise” ao invés de falar internamente.

Então, com tudo esclarecido, Neymar vai até ele e entrega a tarja de capitão como quem diz: “Taí, cara. Se é tão importante pra você, taí.”

O próprio Thiago não tem a reação mais espontânea do mundo, talvez porque tenha notado naquele momento porque perdeu a tarja.

Neymar pode não ser o maior líder motivacional do elenco, mas é de longe o mais preparado pra ser “o cara” num time que surtou e não soube lidar com a derrota há poucos meses.

Thiago é um zagueirão. Neymar, um gênio.

Acho que hoje ficou tudo muito claro.

abs,
RicaPerrone

O time que “quase” não perdeu em 2014

Acabou o  ano mais esperado, frustrante e inesquecível da história da nossa seleção.  Entramos favoritos, chegamos favoritos, perdemos como um time de juniores, retomamos rapidamente e ganhamos todos os jogos, inclusive dos vice campeões do mundo que jogaram menos do que nós a Copa toda.

Com caras novas, mais de meio time da Copa e um esquema tático idêntico, o Brasil prova que houve um descontrole emocional na Copa do Mundo muito acima de qualquer questão técnica e tática.

Era isso, com o Oscar e o Hulk trocando. Hoje troca com William, mas não mudou a formação, menos ainda o desenho do time.

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Mudam algumas peças e na verdade o que temos em campo é um time menos pesado, com muito menos pressão e com o controle emocional do que deve fazer.

Tem uma mudança na compactação da defesa com o meio, mas num geral é o time da Copa. Os resultados pré-Copa.

O 7×1, que foi um surto emocional após o segundo gol, para muita gente é reflexo disso ou daquilo. Bobagem.  Um time com 19 “europeus” e um treinador há 10 anos atuando lá não reflete porra nenhuma do que é feito aqui em nosso futebol.

Foi um apagão. Não haverá outro.

Bola pra frente. E de preferência no Neymar.

abs,
RicaPerrone

Tá fácil “chegar lá”

Eu não tenho nem avaliação pra fazer sobre o Firmino e o Talisca. E isso me dá alguma desconfiança, já que pra ser um  jogador de seleção brasileira, na minha cabeça, o cara deve ser pouco contestável.

Talvez eu esteja falando dos novos craques do time. E que fique claro, não os conheço.  Mas me preocupa muito que 15 jogos no campeonato Português seja o suficiente para estar no time mais cobiçado do mundo.

Me preocupa que o Firmino jogue num time de merda da Alemanha e que chegue a seleção brasileira por ele. Tal qual o goleiro da Fiorentina, outro time meia boca que não deve exportar ninguém pra seleção brasileira.

– Então pra você jogador pra ir pra seleção tem jogar em time grande?

Sim. É parte do processo provar que pode.  Quantos caras você viu brilharem na Portuguesa e sumirem fora dela? Quantos na Ponte Preta? É diferente ser “bom” num time pequeno . Pra aparecer num grande tem que ser “muito bom”, e é isso que a seleção busca.

O Talisca pode ir do Benfica a seleção. É time grande. Mas em 15 jogos?

É isso que o jogador precisa na carreira agora pra chegar a mais cobiçada posição que um jogador pode chegar?

Acho pouco, como achava um equívoco em 2010 considerar Neymar e Ganso as soluções da Copa por 1 paulistão  bem jogado.  Tá fácil. Tá tudo muito na mão e quando se tem muito fácil se dá menos valor.

A camisa da seleção tem que ser um prêmio, não uma aposta.

abs,
RicaPerrone

O “novo” Tardelli

Poucas vezes vi uma estréia como a dele. Foi um São Paulo x Juventude se não me engano. Ele entrou, mudou o jogo, fez lances de efeito e nunca tinhamos ouvido falar dele na base.  Era uma surpresa fantástica ao torcedor que nos jogos seguintes já o pedia em campo, ele entrava e resolvia.

Durou pouco. Tardelli logo passou a titular e os gols foram sumindo, as noitadas aumentando, as polêmicas, a tentativa de vendê-lo até se desfazer do jogador por empréstimo. Foi, voltou, foi, voltou. Não rendia mais o esperado. Tardelli era mais uma promessa que não deu certo.

Passou pelo Flamengo, também não foi o promissor atacante que esperavam ter contratado. Até chegar no Galo e lá sim, pela primeira vez, conseguiu identificação com um clube, uma torcida e rendeu mais que o esperado. Chegou a seleção, mas não se manteve. Logo, sumiu de novo lá nas Arábias.

Com 28 anos, Tardelli voltou ao Galo. A única torcida do mundo que acreditava estar contratando um craque era a do Galo. Os outros todos tinham um Diego muito menor em mente. Mas eles bancaram, apoiaram, e um novo Tardelli apareceu.

Esse do Galo sai da área, cria, corre, pede a bola e não some. Usa a técnica na hora certa, não corre a toa, é muito mais maduro e merecedor até mesmo da vaga na seleção brasileira.  Talvez não seja aquele “9” nato, e talvez por isso tenha dado mais certo.

Me lembra Muller, que foi um craque acéfalo durante anos correndo e girando até ficar velho e, então, virar gênio.  Diego aprendeu uma forma de jogar que o beneficia. Inteligente, sem se colocar como “cabeceador”, nem como o poste que espera as bolas. Uma função quase de meia, quase de atacante, mas hoje moderna e importante.

Tardelli se reinventou a tempo. Eu diria que aos 44 do segundo tempo e, enfim, vingou a promessa de 2oo4.

Com quase 30, nem acho que seja “o cara” pra ser companheiro do Neymar daqui 4 anos. Terá 33, difícil manter o nível. Mas não impossível. Até porque aquele Diego que corria hoje pensa mais do que corre. E cérebro não envelhece aos 33.

Enfim, Tardelli! Aquele que esperei, acreditei, duvidei, detestei, confirmei e hoje vejo em campo parte do “craque” que imaginamos há 10 anos.

Que bom! Pra ele, pro Galo, pra nós!

abs,
RicaPerrone

História

O ser humano tem o péssimo hábito de só reconhecer a grandeza do que vê quando acaba. Seja pela morte, a aposentadoria, o fim de um evento, na verdade somos quase sempre incapazes de reconhecer o privilégio que estamos tendo diante dos nossos olhos.

Até que vira história, e então damos valor e passamos a eternidade declarando saudades e orgulho de ter visto.

Neymar tem 22 anos, completou hoje 40 gols pela seleção brasileira, se tornou o quinto maior da história, já fez mais da metade dos gols de Pelé, e ainda muito jovem passa dos 200 gols na carreira.

Os 4 gols no Japão foram apenas mais 4 entre os possíveis mil que um dia terá feito. Mas quantas vezes presenciaremos um Neymar jogar futebol?

Vivemos Ronaldo, Romário e os contestamos até o último jogo.  Pela barriga, pelas baladas, sempre um “porém”, mero prazer em ser azedo.  No Brasil, fazer sucesso é anti ético.

Neymar, portanto, faltará com a ética em doses inaceitáveis pelos próximos 12 ou 14 anos. E é melhor convivermos com isso sorrindo do que tentando negar. Estamos sim diante de um novo “top 5” do futebol mundial.  Não diria que um Pelé, mas um cometa raro que numa vida dificilmente veremos dois.

Se pela direita, pela esquerda, cavando faltas, caindo demais ou não. Pouco importa.  Em alguns anos você contará pra seus netos ou filhos que viu Neymar fazer o que está fazendo.

E muita gente, como quem filma um grande momento pro instagram ao invés de vivê-lo, está olhando pro cometa como se fosse só mais uma estrelinha.  E não é. Nem a olho nu.

Viva Neymar. De todas as formas.

abs,
RicaPerrone

Qual o problema?

As imagens de Dunga discutindo com o banco de reservas da Argentina em mais uma vitória sobre os nossos rivais tem duas interpretações e partem de dois tipos de pessoas.

Algumas acham que um campo de futebol é como um saguão de aeroporto e que uma discussão entre rivais é assustador. Outros já sairam do condominio ao menos uma vez na vida.

Dunga é um cara que briga por nós. Que veste a camisa e que se defende tão bem em campo quanto fora. Sempre esperando uma pancada, até porque a vida só lhe deu porrada até hoje.

Não quero o Dunga pra casar com a minha filha, nem pra dar aula pro meu filho. Quero o cara pra mandar na minha seleção e pra isso é preciso mais do que um terno, um bom papinho com imprensa no pós jogo e um vocabulário perfeito.

Eu não sei do que os argentinos o chamaram, mas pelo histórico foi de “macaco” pra baixo. E qualé o problema no Dunga reagir a isso?

É de outro Parreira que estamos atrás? De um time de mortos que aceita os 7×1 sem saber o que fazer ou você também pensou, em julho deste ano, que faltou alguém cair, dar um pontapé ou fazer algo pra evitar aquilo?

Brasil x Argentina é a maior rivalidade entre seleções do planeta. Não há santo, não há “por favor”, nem ninguém pedindo “licença”. As discussões acontecem o tempo todo e insinuar que o carinha do banco adversário é “cheirador igual o Maradona” é uma das mais simples delas.

“Ah mas um comandante não deve agir dessa forma”.

Não fode. Dunga comanda um time de futebol e não uma orquestra sinfonica. Sensacionalismo barato pra tentar, de novo, fazer de desafeto pessoal uma perseguição ao treinador que JAMAIS fez um trabalho ruim frente a seleção e já começa esse calando a boca de quem foi dormir na sexta-feira profetizando a goleada argentina.

Que obviamente, de novo, passou longe de acontecer.

Dunga tem o “defeito” de ser humano e cometer erros, perder a paciencia, reagir a provocações e ofensas.  Outros se fazem de robôs, cagando regras de como o mundo deveria ser sem ter experimentado conhece-lo como de fato é.

abs,
RicaPerrone

Enfim, Diego!

Faz 100 anos.

Brasil e Argentina se encontraram pela primeira vez há 100 anos pra relação mais longa que não deu certo da história do universo. Desde 20 de setembro de 1914, eles nos temem, nós os consideramos irritantes.

Tentamos criar um monstro que nunca existiu pra poder ter com quem confrontar. E eles, sabendo ser um poodle, latem como pastores pra não perder a pose e fingem acreditar nas mais delirantes ideias, como a de que Maradona “és mas grande” que Pelé.

Quando é pra valer chega a ser constrangedor. Mas alguns vivem de ensaio, outros do show.

100 anos buscando um feito. E feito bandidos nos doparam, compraram um goleiro pra nos eliminar. E só assim, diz a história, conseguiram.

Hoje era amistoso. O dos 100 anos. Aí pra comemorar deram a ele o status de torneio e uma taça.  Pronto, estava resolvido o jogo.  Só não sabiam os argentinos que além da taça e da paulada, ainda teriam que amargar mais uma.

Nos 100 anos de confronto, Maradona fez 1 gol contra o Brasil.  Tardelli fez dois.

Temos, portanto, agora, o maior Diego dos confrontos Brasil x Argentina.

E tem pior: Na seleção sub 15 do Brasil tem um Leonel…

abs,
RicaPerrone

Sim, Kaká!

No meu ideal de seleção, “futebol não é momento”.  Momento é quando um jogador mediocre pega confiança e começa a fazer o que ele não faz por rotina. Ou quando um genial jogador começa a errar por algum problema pessoal, enfim.

Fato é que sabemos que em breve os dois voltarão ao normal. E pra mim a seleção devia ser um time, um cargo por merecimento a médio prazo, onde pra ser convocado você tivesse que passar por etapas e então, quando convocado e parte do grupo, não perderia sua vaga ao primeiro rapaz que jogasse 6 rodadas bem no Brasileirão.

Kaká nunca foi na seleção o que foi no Milan, e depois do Milan nunca mais foi em lugar algum.  Mas é um jogador de alto nível, experiente e melhor que William e Oscar ainda.

Aos 32 anos contesta-se a “renovação”. Não tem que haver renovação forçada, nem com data. Ela acontece todos os dias, o tempo todo.  Quando ele não for mais o melhor meia, entra outro. Quando esse outro perder espaço, entra outro. Não precisa a CBF ou a mídia determinar que “agora é pra renovar”.

Kaká hoje é um meia que a seleção não tem e precisa.  Sua convocação não é apenas justa como também sorte da seleção. Não por perder Goulart, óbvio, mas por ter em Kaká e Robinho dois jogadores que tiram um pouco o peso dos meninos que não apenas tem pouca idade como também tem um 7×1 pra carregar nas costas.

O Hulk e o Daniel Alves me causam espanto. Kaká, não.

abs,
RicaPerrone

Blá, blá, blá…

Faz quase 3 meses.  Desde aquele dia a imprensa esportiva brasileira já delirou nas mais absurdas teses sobre o “porque” e já decretou o fim do nosso futebol. O povo repete, pois é assim que funciona. E ganha eco, aumenta, se transforma em verdade absoluta.

Eu passei os últimos 3 meses conversando.  Jantei com dirigentes, treinadores, jogadores, gerentes da base, ex-técnicos de seleção, até chegar a algum lugar.  E acho que hoje, sem a frustração de uma derrota na cabeça pra querer destruir tudo, posso dizer com mais calma o que entendi.

Senhores, o futebol brasileiro não é uma merda e nem está falido. É mentira, e das grossas. Somos, na verdade, uma ilha de prosperidade em meio a um continente falido. Somos, talvez, o único futebol do mundo que sobrevive com altas receitas sem contar com os vizinhos.  E quando nossa receita é 5 vezes maior que a média do vice-campeão mundial, eu sou obrigado a tirar a seleção como parâmetro.

Afinal, os que acham que a seleção brasileira perder de 7 é um reflexo do futebol interno acham o que sobre o futebol inglês?

Entendi…

19 jogadores que atuam na europa com um treinador que está lá há 10 anos não tem como estar refletindo nada daqui. Se essa seleção fracassou foi por pressão, tática, técnica, o que for. Mas não porque o campeonato brasileiro é isso ou aquilo.

Pois vamos tratar de tudo isso em etapas. Mas vamos começar do “nível ruim”?

É bom registrar que temos internamente o terceiro melhor campeonato do mundo. E se nosso nível é ruim, acho que temos um problema no futebol mundial e não no nosso apenas.  Ingles e Alemão são melhores. O resto, abaixo.

Você é covarde quando rotula ou comparara nosso futebol. Vai logo no Real Madrid e comparar com um dos nossos. Não há comparação.  Mas a Espanha tem 2 times, a França tem um. Nós temos 12. E nossa comparação tem que ser feita pelos campeonatos NACIONAIS deles, não pela Champions.  Ou é problema nosso também termos um continente falido a nossa volta?

A questão que quero tocar hoje é no jogo dentro das 4 linhas.

Há uma diferença cultural brutal entre o brasileiro e o europeu que sempre nos deu vantagem em campo. Mas com a evolução física e tática do futebol, inverteu. Hoje é mais interessante um volante inteligente de técnica comum do que um jogador genial não tão rápido.

Assim, com a mediocridade estabelecida como padrão, o futebol se tornou um jogo rapido, onde errar menos é o objetivo.  Europeus tocam a bola de lado até terem condições de tentar algo mais arriscado.  Nós tentamos no primeiro lance uma bola que resolva o jogo.

Não há jogador brasileiro que consiga receber e tocar fácil sem antes pensar se ele poderia ou não ter feito algo diferente. Não porque somos piores, mas porque nos criamos assim. Quando garotos não recebemos aplausos dos nossos pais por um toque curto, mas sim por uma sequencia de dribles.  Isso é cultural, não se muda com uma canetada ou com uma troca de poder na CBF.

Os europeus simplificaram o jogo na certeza que não poderiam nos vencer na base do improviso. E então, diminuiram o campo, os espaços e aceleraram o jogo até que houvesse uma dificuldade pra nós.

Como você diz pro Robinho, magrelo, driblador, individualista e genio, que agora na Europa ele tem que aprender a tocar de lado pra não perder a bola? Como você ensina uma geração toda a não arriscar tão cedo pra poder agredir com mais gente?  Como se ensina futebol pela segunda vez numa mesma vida a um jogador?

É fácil olhar Manchester x PSG e achar nosso futebol uma merda.  É brasileiríssimo a reação de detonar tudo que é nosso. Mas tentar entender como, porque e de que forma isso vai ser mudado, nem tanto.

Os times brasileiros após a Copa já seguram mais a bola. Já tocam mais no chão e devolvem menos a bola.  Longe ainda do que se pratica lá, mas já notaram a mudança e já começaram a fazer.

Copiar o europeu é burrice pois se fizermos isso vamos perder. Nosso garoto vem da favela cheio de ginga, o deles vem da universidade. Se igualarmos o tipo de futebol, vamos privilegiar o loirinho de olhos claros do papai rico, e com isso vamos desequilibrar pro lado de lá.

O futebol muda o tempo todo e esse é um momento em que acharam uma forma de equilibrar o jogo conosco. Em seguida vem a nossa forma de driblar isso, depois a deles de igualar, e assim vai.

A tal “crise técnica”  é mundial e basta lembrar que há 4 anos assistíamos a uma Copa terrível, e há 8 uma ainda pior.  Nesta, por melhor que tenha sido, a vice-campeã não jogou futebol. E a quarta colocada, segundo os nossos criticos, fez um trabalho horrível.

Resultados não determinam exatamente tudo que foi feito e menos ainda a distância entre o vencedor e o vencido.  Nós temos que encontrar um meio termo onde devolva-se menos a bola, mas que ainda seja fundamental o improviso brasileiro. Ou então viraremos europeus, e então, perderemos pra eles.

A bola no chão. O passe mais simples. O jogo menos acelerado.

Já há uma mudança. E o 7×1 não significa nem 10% do que estão dizendo pra você.  Os nossos problemas são os mesmos de 2002, quando eramos reis. E serão os mesmos daqui a 10 anos, caso não mudem o discurso pronto, simplista e barato.

abs,
RicaPerrone