Flamengo

Eu, Deus e o Zico

Era maio de 1986. Eu tinha 7 anos e já uma paixão por futebol fora do comum. Minha mãe, Testemunha de Jeová na época. Meu pai, quase ateu.

Nas “missas” que minha mãe me levava era comum que nos ensinassem a rezar e incentivassem a isso. Naquela religião, porém, as orações eram “conversadas” e não decoradas. Você tinha que cria-las.

Naquela época não existia esse monte de babaca que “não torce pra seleção”. Todo mundo era fechado com o time, ninguém queria aparecer no facebook e pra isso ser “diferentão”. Nós amávamos a seleção. Era o nosso time, independente de quem vestisse a camisa.

Eu me lembro como se fosse hoje. Assisti ao Globo Esporte, logo depois minha mãe entrou no quarto e eu estava, pela primeira vez, rezando por contra própria.

Orgulhosa, foi ao meu encontro parabenizar e fazer “festa” pela minha primeira oração por conta própria. E então, me perguntou:
– Conta! O que você pediu pra Deus?
– Pro joelho do Zico ficar bom, mãe.

Acho que ela não gostou. Mas com 7 anos eu ainda não sabia mentir e portanto ela não reagiu mal. Só deu risada e me orientou a pedir coisas “mais importantes”.

Ora, mãe! Mais importantes que o joelho do Zico em maio de 1986? Em que mundo você vive?

Não adiantou muito. Deus até colocou o joelho dele em condições de jogo, mas esqueci de pedir pra que ele não dar o poder de “condenar” alguém nas mãos de uma gente tão ingrata e covarde.

Chorei bastante quando perdemos. Metade porque meu herói era o vilão, metade pela seleção.

Hoje, profissional do futebol, eu acho graça. Mas não me lembro de ter feito nenhuma oração tão sincera quanto aquela desde então. A gente nunca mais é sincero tanto quanto quando criança.

O conheci, já fiz programa com ele na rádio, já tive o hábito de encontra-lo toda segunda-feira e até trocamos mensagem pelo celular, veja você! Mas ainda não consigo entender com naturalidade poder falar com Zico.

Nenhum sujeito no mundo, nem Pelé, conseguiu ser tão “Rei” para sua gente quanto Zico para os rubro-negros. O menino de 15 anos o idolatra tal qual o senhor de 50 que viu cada lance do Galinho. É um ritual, uma credencial.

Foi o mais próximo que cheguei de ser religioso na vida.

Parabéns, Galo!

abs,
RicaPerrone

Ranking 2019: Quem foi mais longe?

E se pudéssemos contar com valores interpretativos o quanto um clube “conquistou” em uma temporada?

Pois bem. Dei valores a campeonatos e posições, sempre usando critérios pessoais obviamente por não haver nada estabelecido nesse sentido.

Mas dá pra ter uma idéia mesmo que você discorde delas.

O mais puro Imperador

Hoje é dia de verdade. Dia de subir o morro pra encontrar quem cresceu comigo. Dia de meter gol no rival e mostrar os musculos pra mais tarde.  Dia de chorar feito moleque num corpo de gladiador.

Dia de cometer burrices imperdoáveis em meio a conquistas geniais. Dia de andar descalço na favela tendo aos seus pés uma mansão em Milão.

É dia de estacionar a BMW na comunidade pra empinar pipa na laje. Dia de ser herói com a 9 da seleção e jogar bilhar no boteco pra comemorar no outro dia.

Dia de ser gente como a gente, mesmo sendo um super herói trapalhão.

De trocar o amigo ator pelo amigo frentista do posto de gasolina que foi criado com você.  Dia de recusar entrevista pra Globo porque tá com sono.

Dia de chorar a morte do pai. Dia de encher a casa de mulher. Mas mulheres de verdade, do dia a dia, não as da revista.  Mulheres da Vila Cruzeiro, por exemplo.

Dia de ser o ídolo que fez tudo pra dar errado e deu certo. Dia de ser o herói de uma nação.  O mais favelado da “favela”  rubro negra. O estereótipo perfeito do que um dia foi “mulambo”  por ofensa.

Adriano é o carioca. É o povo do Rio em forma humana, descalço e louco pra sorrir a toa, mesmo metendo a marra por instinto.

Hoje, aos 38, comemora uma vida cheia de altos e baixos mas com todos os erros e acertos de quem corre o risco de ser quem  de fato é.  Nosso Imperador não pode usar ouro, roupa chique, sapato italiano e nem passar o domingo sóbrio.

Imperador do Flamengo? Não. Adriano é o jogador que nós seríamos.

O nosso erro possível. O inatingível mais real que já tivemos.

Erre sempre, Adriano.  Nós amamos você assim, todo errado.  Afinal, nossa vida não é como a do Instagram.’

RicaPerrone