Flamengo
Rica analisa a temporada do Flamengo
Bolo sem cereja não estraga festa

A luta é longa, o sonho é claro e tem data marcada. Todos querem a Libertadores, que é a realização meritocrata do possível.
O Mundial, hoje, e há alguns anos, é um sonho distante e que conta mais com uma dose de acaso do que com ser, de fato, “o melhor do mundo”.
Por isso os europeus não dão tanto valor. Pois pra eles antigamente era inviável, em seguida virou obrigação. Veja você. Nós já fomos os imbatíveis.
Hoje o Flamengo poderia perder de goleada, tentar vencer por uma bola, travar o jogo em pontapés. Jogou como time grande, de frente, buscando, lealmente, a vitória.
Não foi por uma bola. Foi por várias. E elas até existiram. Pra lá e pra cá, é verdade.
A cereja do bolo não veio. Ficamos com os brigadeiros, os convidados, o bolo em si e a alegria de ter muito o que comemorar.
Inclusive, pasmem, a forma com que perdeu. Pois se há muito o Brasil vai ao Mundial pra não jogar, hoje foi pra trocar tiro e não pra correr deles.
O placar de Lima talvez não seja coerente com o jogo. O de Doha idem.
As vezes a bola escolhe lados meio sem critério. O Liverpool é melhor. Hoje, o Flamengo foi “maior”.
É diferente.
RicaPerrone
Planejada 2019 #34
Todo começo de temporada os treinadores fazem um planejamento. Aí você pode perguntar: “Que diabos de planejamento é esse? Ele planeja perder? Não era pra tentar ganhar todas?”. Sim, era. Mas nem treinador é tão apaixonado e maluco de imaginar que vencerá todos os jogos de um campeonato como o Brasileirão.
Assim sendo, eles planejam uma forma média de atingir os pontos do último campeão, ou perto disso. E você pode se perguntar: “Qual critério ele usa pra saber onde pode perder ou onde tem que ganhar?!”.
Normalmente eles seguem uma linha simples. Ganhar todas em casa, bater nos pequenos fora, empatar com os médios e aceitam perder pros gigantes fora de casa. Esta soma dá o suficiente para você estar, no mínimo, brigando pelo título. A não ser que alguém dispare e quebre todo planejamento.
O mais afoito pergunta: “Mas se um time tem 20 pontos e o outro 18, com os mesmos 13 jogos, é óbvio que ele está melhor, não?!”.Não. E se o que tem 20 pegou 5 pequenos fora, 1 clássico e 7 grandes em casa? Significa que ele pegará os 7 grandes fora no returno. Talvez os 18 pontos conquistados sobre clubes mais fortes sejam mais valiosos do que 20 em pequenos.
Atenção:
– A conta busca uma fórmula de se chegar aos 74 pontos, que aproxima muito do título.
– Alguns times podem perder clássicos, outros não. Isso porque alguns tem 2 clássicos por ano, outros 6.
– “Ah mas se meu time perder um jogo que era pra ganhar, ja era?” Não. Você calcula por outro jogo que “não era pra ganhar” e equilibra. Compensa.
– Eu não entendi! Facilitando: O importante não é seguir a risca os resultados. É chegar a rodada X perto ou com mais dos pontos planejados pra rodada X. O percentual diz o quanto seu time fez de pontos perto do que DEVERIA ter feito até aqui para brigar pelos 74 pontos. Só isso.
– As tabelas são INDEPENDENTES entre si. Não as compare procurando o mesmo resultado pois não serão 11 campeões.
Enfim, aí está! Se você não entendeu, pergunta pro amiguinho do lado que ele explica.


Carlos, Arthur; minha nação

Estou nos EUA há uma semana. Digo isso logo de cara pra que compreendam que pela primeira vez na vida eu não vivi o pré de um jogo decisivo. Não há futebol nos EUA, simples assim.
Passei dias sem rede social, sem os amigos, trabalhando o mínimo possível e portanto perdendo a ligação com a final que lá em 2007 eu jurava que veria em meio a um Flamengo caótico, endividado e pouco promissor. Foi quando na reação dos jogos a menos do Pan a torcida do Flamengo passou a me dar a honra de sua audiência. E a ganhei exatamente por dizer ali, naquele cenário, que esse dia chegaria.
Chegou e eu não estava aí pra vivê-lo. Mas veja você.
Sozinho no aeroporto de Miami vendo o jogo burlando uma conexão VPN e com as imagens travando assisti ao primeiro tempo friamente. Era a final mais sem graça da minha vida. Torcia pelo Flamengo, pelas dezenas de amigos que lá estavam e pelos outros tantos que trabalham no clube. Pelo merecimento de um bom trabalho, pelo futebol brasileiro e pela derrota argentina.
Mas fazia tudo isso sentado, mudo, sozinho.
No intervalo minha namorada me alertou que havia um homem atrás de mim olhando pra tela. Tímido, pediu desculpas mas disse que não estava aguentando. Ele tinha um filho de 6 anos. Os chamei pra ver conosco. Seu nome é Carlos, seu filho Arthur. Alagoanos de Arapiraca, Carlos me contou ser rubro-negro e agradecendo a sorte disse que já nem contava em ver a decisão mais.
Colocou seu filho Arthur no colo e começamos a torcer pela virada.
Uma hora o garotinho disse “não vai ter gol do Gabigol assim!˜, e nós explicamos a ele que pra ser Flamengo teria que ser no finalzinho. Mas era um adulto contando de Papai Noel. A gente conta, até espera, mas não acredita exatamente naquilo.
Os minutos foram passando e Carlos ficando nervoso. Eu, que estava frio perante o jogo, já andava de um lado pro outro reclamando de cada passe errado. Os americanos olhavam sem entender nada o que eram aquelas pessoas na frente de um computador xingando a tela no meio de um sábado.
Flamenguista tem algumas características pouco disfarçáveis. Uma delas é a marra, a outra é a confiança baseada em absolutamente nada. O River era calmo, tinha espaço, o Flamengo não criava nada, derrota desenhada. Dia em que nada deu certo.
E então o gol de empate surge, o jogo caminha pra prorrogação e eu e Carlos comemoramos no aeroporto junto do garoto que nõo fazia idéia estar vivendo uma história que contará pros seus netos um dia. E então batemos as mãos, comemoramos e eu disse, tolo: “na prorrogação vamos virar!”.
Carlos me olhou rubronegramente e disse “Prorrogação nada. Vamos virar é nos acréscimos”.
De onde vem essa fé? Qual o santo que só eles enxergam? Porque pra eles o milagre é previsível?
Quando o Gabigol virou o jogo eu não comemorei. Parei pra ver um pai pegar seu filho de 6 anos e, no alto de seus mais de 45, encher os olhos de lágrimas num país distante, ignorando quem estivesse em volta, apenas pra dizer “eu não disse, filho? É o Flamengo!”.
Como quem vê Papai Noel entrando pela chaminé, Carlos mostrava pro filho que em momento algum o enganara. Apenas demorou pra provar.
Acabou. Arthur mal entendia, mas vai entender. Quando Carlos faltar e Arthur for relembrar, esse minuto estará na memória. Tal qual o Flamengo estará, a partir de hoje, pra sempre na sua vida.
Se você acha que ganhar a Libertadores é grandioso, imagina o coração e um espaço na memória do seu filho.
Parabéns, nação.
RicaPerrone
“Tem que respeitar meu tamborim”
Rubro-negro “não entende”.
Entende, sim. Só finge que não.
A euforia do Vasco é vosso atestado de competência, ora pois. Divirta-se com ele.
E o jogo de hoje é a redenção de uma torcida, uma lição e um alerta.
Vascaíno está cagando pro ponto. Ele está eufórico pela identidade.
O favoritismo dado ao Flamengo hoje pela mídia é desproporcional a história do futebol brasileiro. Desrespeitosa até.
E ao ver o seu time dizer “aqui, não!”, é muito mais do que 3 pontos.
Não pela bola, que foi ótima no primeiro tempo. Mas pela forma. Atacou, brigou, bateu, apanhou, e em momento algum olhou pro Flamengo como um time inferior.
Era isso que o torcedor do Vasco queria. Só isso.
O rubro-negro queria a goleada. E ao deseja-la esbarrou na história. Mesma história que tantas vezes impediu suas quedas, hoje impediu um roteiro otimista ao extremo que chegava a pagar 9 em casa de apostas para vitória do Vasco.
Onde estamos? Na Espanha? Em Portugal? Onde que um clássico tem um time com 10% de chances de vencer apenas?
Flamengo sai honrado. O Vasco, honrando.
O nosso futebol, respirando.
RicaPerrone
Em mais uma vitória rubro-negra, Botafogo dá lição aos rivais

Foi por pouco. O Botafogo de fato quase conseguiu a proeza de vencer o Flamengo galático e imbatível de 2019. Chances aconteceram, o jogo foi equilibrado até a expulsão, mas o que me chamou atenção ficou menos no resultado e mais no estádio.
Explico.
Primeiro a mobilização para não dar ao rival, mesmo que por dinheiro, a condição de mandante. Dinheiro é importante mas posicionamento também é. Por isso defendi que Pedro não fosse vendido ao Flamengo e concordo inteiramente com o Botafogo negar aumentar a carga de ingressos ao adversário.
Porque?
Porque o que se viu ontem no Nilton Santos foi um Botafogo extremamente inferior ao Flamengo peitando e se colocando, junto da sua torcida, como um rival deve se colocar. Coisa que Fluminense e Vasco esse ano não tem feito, especialmente quando colocam um bloquinho de 3 mil torcedores contra 40 do Flamengo no Maracanã.
Clássico você disputa desde as 9 da manhã na padaria.
O Botafogo soube fazer deste jogo desigual um jogo disputado e com chances pros dois lados.
Ah, bateu!
Bateu. Jogou duro. Foi até burro as vezes. O Carli por exemplo terminou o jogo em campo por piedade do árbitro. Mas existe o artifício da falta, da intimidação e o juiz pra punir. Graças a essa lógica, inclusive, o Flamengo venceu o jogo. Não fosse a força exagerada dos jogadores do Botafogo talvez ninguém tivesse sido expulso.
No 11 x 11 estava bem complicado.
Defendo o direito ao drible. O direito ao pontapé. E a consequência óbvia do cartão. Os três estão no contexto do jogo.
O Botafogo não tem futebol e time pra peitar o Flamengo. Mas ontem teve atitude, ambiente e mobilização pra isso.
Em 4 jogos o Flamengo teve 3 dificuldades contra times ruins. Isso não é um alerta de mau futebol, mas sim de que o foco é a Libertadores já.
Vitórias de time campeão. Não a espetacular, mas a quando você não vai bem. Não estar num grande dia e vencer é sintoma de título.
E o Botafogo, que acho que cai por ter um time muito ruim, ontem mostrou ao menos mobilização e posicionamento de rival, não de time pequeno aceitando o rebaixamento moral de status diante do Flamengo.
RicaPerrone
Humilhar pode. Aplaudir, não.
O debate sobre os aplausos jornalísticos a Jorge Jesus após Flamengo x Gremio é interessantíssimo. Pode a imprensa aplaudir alguém? E a isenção? Quando sai o jornalista e entra o torcedor?
Primeira etapa desse debate é entender que os “influenciadores” – termo escroto usado pra não rotular um profissional que está ali fazendo o nicho que a imprensa não tem capacidade de atingir – tem o direito de fazer isso e mais: o dever. Eles representam torcidas. A imprensa, não.
Mas aqui vai uma breve reflexão.
Porque vocês não se revoltam com os colegas que mentem? Porque não se rebelam contra as perseguições constantes e abertas de jornalistas e treinadores e jogadores por algo pessoal?
Porque nunca incomodou que treinadores fossem menosprezados e humilhados por colegas de vocês?
Porque é permitido ofender, humilhar e não aplaudir?
Onde está vossa isenção quando ideologicamente seu jornal/emissora manipula os fatos pra brigar veladamente contra quem discorda dela?
Onde está sua raiva com o jornalista que agride meio mundo por indireta e quando respondido processa pra se fazer de vítima?
Onde está vossa indignação quando plantam notícias, quando colegas são comprados por diretorias e entidades pra defender posições de interesses de terceiros?
Tudo isso é dia a dia. Ninguém liga.
Mas os aplausos a um profissional que acaba de brilhar os ofende?
Entenderia fosse sua índole a isenção. Não sendo, fazendo parte do mais escroto e corporativista câncer deste país chamado “imprensa”, quem és tu pra se indignar com aplausos?
Há um mantra jornalístico que diz que “jornalismo é oposição”. E é tão absurdo que oposição determina lado, e portanto não é isento.
Se amanhã Jesus perder 3 jogos diversos jornalistas farão deboche, campanha pra derrubar, discursos clubistas pessoais contra o treinador até destruir a reputação do sujeito. Mas não, isso não revolta.
Aplausos, sim. Isso deixa a imprensa “puta”.
Ou será só raivinha por ter que dividir sala de imprensa com jornalistas nichados em clube?
RicaPerrone
Foi hoje!

O dia mais esperado pelos rubro-negros por mais de 30 anos aconteceu nesta noite.
Talvez ele precise de umas semanas pra compreender, mas o que você esperou não foi o título da Libertadores mas sim viver a noite da conquista.
Você não passou 30 anos pensando em viajar pra Santiago, nem mesmo em ganhar a Libertadores sábado a tarde com 12 mil torcedores seus no estádio.
A conquista, acredite, é apenas o rótulo do que você viveu. O abraço de hoje no segundo gol é o que você sonhou. No Maracanã lotado, com o Brasil parado em um jogo numa noite de Galvão Bueno na tv.
O jogo do “medo”, do ambiente onde tudo pra dar errado estava pronto e não aconteceu.
Nos olhos rubro-negros há arrogância, raiva, medo e uma alegria tão inenarrável quanto o futebol por seu clube apresentado.
O 5×0 era previsto no seu mais secreto plano não exposto para evitar a tal da “zica”. Mas havia a expectativa de que pudesse acontecer.
Hoje dormem – se é que dormem – esperando a decisão, o iminente título nacional e a possível conquista continental. Entre os seus, na sua cidade, como deve ser e como foi sonhado.
Você vai me entender dia 23. Ganhe ou não, o melhor dia dos últimos 35 anos aconteceu nesta noite no Maracanã.
Se perder, diminuirá sua festa pelo Brasileiro. Se ganhar, criará uma nova expectativa pelo Mundial. O futebol acontece enquanto esperamos, não quando o juiz apita.
Hoje é o maior dia do Flamengo desde 1981.
Simplesmente porque hoje, pra todos os efeitos, queiram os placares ou não, ele é pro rubro-negro o “melhor time do mundo”.
A FIFA chancela título. Quem olha nos olhos do filho e vê paixão e orgulho pelo clube que você passou pra ele é torcedor. E hoje, aposto um braço, não tem um pai rubro-negro que não esteja olhando nos olhos do seu garoto sentindo-se “culpado” por tamanha alegria.
Que venha o caneco pra rotular a história. Mas ela já existe.
RicaPerrone
Na dúvida, olhe pro cometa

As vezes a gente passa tempo demais discutindo o que não precisa ser discutido. Entre observar um cometa e passar os raros minutos possíveis em vê-lo teimando se “é ou não é”, não vacile: olhe pro cometa.
Eu não sei o que esse Flamengo vai ganhar. Mas sei que isso também não é nem perto de ser “tudo”. Tolo é quem acha que futebol se basta num resultado, numa relevância de um torneio. Pouco entendido até, eu diria.
Basta ver que o coração de tricampeões da América pararam por uma “batalha” na série B. Que o time campeão do mundo ajoelha até hoje diante de um gol na final do estadual contra um pequeno.
Outro tetracampeão brasileiro chora ao falar do milagre do não rebaixamento. E os maiores campeões do Brasil se apaixonaram por um time que só levou um estadual.
Talvez o Flamengo não ganhe a Libertadores, o que na cabeça megalomaníaca e arrogante de muitos será um absurdo. Talvez ele seja campeão. O Brasileiro é protocolo. Só um absurdo sem precedentes tira o título do Flamengo e me arrisco dizer que bem antes da última rodada.
O que importa neste momento não é exatamente saber até onde vai o cometa, quem o criou, porque está ali e nem quando volta. Mas sim olhar pro céu e registrar na mente algo raro que acontece de tempos em tempos e que levamos os intervalos relembrando.
Quer ouvir contarem ou assistir?
O Flamengo jogando futebol hoje é um cometa. Um time que encaixou como aqueles que citamos no nosso saudosismo diário. Ganhando ou não, falaremos dele um dia.
É competitivo. É inteligente. Parece emocionalmente forte. E é bonito demais de assistir.
Pare de discutir o cometa. Assista-o. Ele demora a passar de novo.
RicaPerrone