São Paulo

O pior momento?

Eu costumo levar a fama de querer ver flores no deserto. Dizem que é um jeito de ‘puxar saco’ de times, outros entendem que é apenas uma forma editorial de ver o futebol.

Não convencerei ninguém nunca. Então foda-se.

O Morumbi hoje cedo foi um dos maiores momentos da história do SPFC.  E se essa crise toda servir pra testar e aproximar uma torcida “de final”,  talvez ela valha mais do que alguns títulos já conquistados.

20 mil pessoas foram ver um treino, dizer pro time que estão ali e que não esperam um título, mas sim que estão dispostos a batalhar pelo mínimo possível, já que este é o momento do clube.

A dor aproxima. As mais apaixonadas torcidas do mundo sofreram muito e por isso são como são. Nenhum filho de milionário dá valor a pão com ovo. O saopaulino não conhece a dor, e não é culpa dele.

Este momento encontra a realidade de todo time grande com uma torcida que nunca reagiu a isso. E a reação surpreende até mesmo ao mais fanático corintiano. Esperava-se isso de outras torcidas, não da do SPFC.

E que surpresa agradável. Somos acostumados a decisão, somos chatos, nos achamos os donos do mundo até porque de fato as vezes acontece.

O Morumbi já recebeu 150 mil pessoas pra gritar é campeão.  Já viu Libertadores, Brasileiro, estadual, Rio-SP e tudo que você quiser imaginar. Receber um abraço carinhoso como o de hoje, sem motivos pra festa, jamais.

E acredite: brigando pra  não cair, longe dos títulos, o São Paulo se tornou hoje um clube maior do que era ontem a noite.

Na alegria os testes já estavam todos feitos. Na tristeza, chegou a hora. E que prova de amor!

abs,
RicaPerrone

Só garotos

Hoje eu não ia no estádio. Estava num dia ruim, numa semana horrível. Nem queria ir, pra se ter idéia. Mas, meu amigo disse que não iria também se eu não fosse. Então, como que por instinto masculino de companheirismo eu logo disse que “então eu vou”.

Fomos.

Lá chegando pegamos nossos ingressos e fomos até a arquibancada do São Paulo. Tem um detalhe aí relevante pro contexto da história que quero contar.  O amigo em questão é o ator Caio Paduan, da Globo. E eu, num estádio, estou entre leitores. É o único lugar do mundo que sou “conhecido”.

É um pouco desconfortável. Por mais que seja frescura, você reage mais timidamente ao saber que pessoas te olham e te conhecem. Então, comportados, nos sentamos e assistimos ao jogo.

1×0. 1×1. 2×1. 3×1. Fudeu.

“Vamos cair”.

38 do segundo tempo. 3×1 pro Botafogo. O placar avisa: “Torcedor visitante, saia antes dos 40 minutos ou apenas após toda a torcida do Botafogo deixar o estádio”.

– Vamo?
– Vamo né? A gente tem que dar a volta pra pegar o carro…
– Só mais esse lance. Vai que…
– É, vai que…

Gol! Ficamos.

 

E nos 6 minutos seguintes não havia dois adultos sentados mais ali. Menos ainda qualquer cerimônia pelo fato de algumas pessoas saberem de quem se tratava.  Era pulo na cadeira, abraço no tio do sorvete, pica pra torcida adversária, gritos inconsequentes de músicas que nem sabíamos cantar.

Em determinado momento o hino ecoava pelo silencioso Nilton Santos. Nós cantávamos o orgulho de ter buscado o empate quando, no meio disso, Marcos Guilherme é lançado, Deus abre as nuvens sobre o estádio, aparece e grita “não cai, porra!”.

Sim, eu vi Deus. E ele falou “porra”. Juro.

Ali, naquele minuto, um jovem estreante que até ontem mal sabíamos o nome, fez dois adultos voltarem a ser apenas garotos.  Não havia mais qualquer problema na minha semana, e o Caio sequer sabia que precisava da voz pra gravar novela. Futebol em estado puro. Amor incondicional, real e surreal.

Jogos para sempre. Dias que valem a pena ter vivido. Momentos que colocam a vida no lugar.  Se eu tinha problemas, não lembro. Se por algum motivo eu pensei em sair com 40 do segundo tempo, foi por mera burrice e falta de memória de que se tratava de uma partida de futebol. Um surto.

Peço perdão aos deuses do futebol por tal absurdo ter passado em minha mente.

Fomos ao ônibus do time abraçar o Rodrigo Caio.  “Que que foi isso moleque!?”.  Não, não. Foi ele quem disse isso, não nós.

“O Hernanes joga pra caralho!”, idem. Foi ele.

Um garoto. Profissional, da seleção, rico, mas após um 4×3 desses, apenas um garoto vestindo a camisa que sonhou quando criança. E nós, ali, mais garotos ainda, olhando pra um ídolo mais novo que a gente.

Ainda ameaçado de cair, lhes informo: não cai!

Porque? Se eu ainda precisar explicar após este sábado é porque você não entendeu nada sobre o São Paulo. E se não entendeu hoje, eu nem vou tentar explicar.  É grande demais pra sua concepção.

Obrigado pelo dia de garotos. Garotos “que te amam ternamente”.

abs,
RicaPerrone

A receita do pão com ovo

Parece simples, e é. Você abre o pão, frita um ovo e joga dentro. Mas a gourmetização do mundo gerou CEOS de pães com ovos, consultores de farinha, centenas de formados em marketing da galinha e aí fuderam com o lanche mais fácil do mundo.

É simples.

Você pega um time que você ama e joga contra um time forte que você respeita. Faz esse jogo valer alguma coisa, diz pro torcedor que o jogo é bom e que ele pode pagar, levar os filhos, os amigos. E lá está, segunda-feira, no frio Morumbi, distante, ruim de chegar e sair, as 20h, com recorde de público.

Ah mas o torcedor do São Paulo… não! Não é uma referência. Nunca foi. Ou seja, o convite era bom. Logo, os convidados iriam.

O pão, o ovo, o fim da fome.

30 reais, 20 reais. Ingresso de jogo de futebol partindo disso. Você não limita ninguém, não exclui que o estádio tenha uma ampla parte de setores caros e o time faturou 1 milhão de reais.

Mas como, ó senhor?! É um milagre? O Santo Paulo multiplicou os pães? Não, querido. Só inverteu a conta, e talvez além de ter tido a casa cheia ainda arrumou um ponto que talvez não levasse com 20 mil pessoas.

Quem foi hoje, volta. Porque quem vai em jogo lotado se apaixona. São alguns mil convertidos no único templo que torna fãs em torcedores: o estádio.

Empatou.

Mas se eu pudesse, com todo respeito ao Grêmio que joga mais, tem mais time e não tem nada com isso, eu daria uma goleada ao SPFC apenas pelo fato de ter tido uma noite pura de futebol entre os seus. Pouca coisa importa mais do que isso no futebol.

Ainda que os CEOs não descubram isso porque não tem aula de paixão em faculdade.

abs,
RicaPerrone

Onde o Flamengo está, os 11 podem estar

Talvez pra muita gente de fora seja novidade, mas sim, é verdade: temos um clube carioca levado a sério administrativamente.  E obviamente isso não implica em “perfeição”, portanto, dizer coisas como “é sério mas erra aqui, ou ali” é apenas mais do mesmo.  Diferente é o que está acontecendo lá.

Mas pouco me importa o que você acha do Flamengo e seu futuro. O meu ponto aqui é que hoje o Flamengo fatura alto, paga em dia, monta estrutura, paga dívidas e tem um grande time.  E isso sem o estádio como fonte de renda.

Onde quero chegar?

Quero que você note que aqui, onde o Flamengo sequer atingiu 60% do seu potencial, dá pra todo mundo chegar. E chegando, está bom pra todos.

Se todos os 11 grandes tivessem 100 mil sócios (e podem ter), uma receita de TV alta, uma diretoria de fora pra dentro sem muitos vícios e vinculos com politica do passado, uma direção um pouco mais profissional e focada em regularizar a situação financeira, teríamos o melhor campeonato do mundo.

E então logo alguém diz que “o Flamengo ganha mais da TV”, e eu lhes digo que não importa. Quanto mais o Flamengo ganhar, mais o seu time pode ganhar.

E se seu time hoje não ganha bem, acredite, a culpa é inteiramente dele. Porque as vendas são individuais, logo, repito, insisto, até cansar: se os 10 insatisfeitos dizem “não”,  Flamengo e Corinthians não jogam sozinhos o ano todo. Portanto, a decisão está sempre nas mãos de quem prefere chorar do que agir.

O patamar Flamengo atual, que não é o seu limite, mas é um avanço, é atingível por todos os grandes. E é extremamente importante que você, torcedor, entenda que tudo que há de bom hoje no Flamengo deve acontecer no seu time. E você deve esperar e cobrar por isso.

Não há nenhum resultado do Flamengo inatingível ainda. Todos os grandes podem sonhar com 100 mil sócios, com diretorias focadas e responsaveis financeiramente. Todos, portanto, podem ter em seus times com salários em dia, um time com Diego, Diego Alves, Everton Ribeiro, Conca, Guerrero e etc.

Talvez em 5 anos não possam ter. Aí estamos falando de um Flamengo que almeja Neymar. E sim, ele pode. Ele é maior que o PSG, que o City, que o Chelsea.  O seu time também é.

Ali, naquele momento, você não poderá ser Flamengo por não ter o número de torcedores dele. Mas será que o patamar atual de gestão dele não é suficiente para que o equilíbrio seja no alto e não permita que seu dinheiro a mais (merecido por ter mais gente)  seja tão determinante?

Dá.

O Flamengo atual é sucesso e é possível. Para qualquer um dos 12 é possível.

O de daqui alguns não será. Então corram atrás desse, ou a “espanhonalização” acontecerá mais por incompetencia alheia do que pelo Flamengo ter descoberto a roda.

abs,
RicaPerrone

“Fudeu!”

Eu sou como você, embora meu trabalho mude minha percepção das coisas e o tempo tenha me tirado algumas paixões, eu vivo os mesmos últimos 40 anos que você e sei quem somos, como reagimos e a relação que temos entre time e torcida.

Pela primeira vez na história, “fudeu”.

Nas outras, arrumamos “crise” porque éramos quinto. Décimo talvez.  Ou porque não fomos as quartas da Libertadores.  Coisa de rico, acha que tá na merda quando não pode ir a Dubai. Não sabe o que é ser pobre.

Se existe um torcedor neste país que não tem idéia do que é sofrimento é o tricolor. Ou melhor, sem cerimonias, somos nós.

Nas vezes em que piorou, tínhamos estrutura, time e condições de sair sem esforço. Nunca o São Paulo PRECISOU da sua torcida. Calma, rebeldinho! Eu não disse que ela nunca ajudou. Eu disse que ele nunca PRECISOU. É diferente.

Vivemos uma vida de esperar as finais e lá estávamos. E mesmo quando ameaçados, era pouco tempo e logo saíamos. Sabíamos que sairíamos.

Hoje não somos mais a referência em estrutura, nossa política não é mais um exemplo e nossa gestão não passa perto de ser referência. Pior: nosso time não é um grande time.

Tem um problema que não sabemos lidar: Elefante na lama afunda. Mosquito voa. Pequenos animais dão seu jeito. Porque o mesmo peso que te coloca como temido te empurra pra baixo.

O São Paulo não sabe lidar com esse cenário. É tudo novo, e embora tenhamos a “queda” do Paulistão na década de 90 pra um grupo inferior que não era uma divisão, mas era sim uma “queda” de patamar, nós não estávamos lá. E esse time que saiu do “grupo B” do Paulista pro Japão jogou muitas vezes pra mil pessoas no Morumbi.

O São Paulo vai voltar ao seu normal. Não tenha qualquer dúvida quanto a isso.

A única decisão a ser tomada agora é se esperamos ele voltar ou se não deixamos ele nem partir.

Nunca fomos uma torcida de massa (povão), participativa, engajada e não tenho qualquer problema com isso. Cada time tem suas características e não passa pela minha cabeça que um torcedor vá entender isso. Mas cabe a mim que passei os últimos 20 anos conhecendo todas as torcidas dizer.

Mas e aí? “Fudeu”.

Vai ser xingando no twitter, procurando culpados ou na alegria e na tristeza até que a morte nos separe?  Tem dia que tu protesta, tem dia que tu pega pela mão e leva.

Acho que o protesto não está mais funcionando…

abs,
RicaPerrone

Mais um “culpado”

Rogério Ceni caiu. Era um roteiro simples, bastante comum, previsível até, embora a gente sempre torça para que Renatos e Grêmios aconteçam mais do que Dinamites e Vascos.

O ídolo comandando o clube. A inversão total do sucesso anterior parece simples, mas nunca foi.

A tentativa foi válida, mas surreal quando descobrimos que havia uma multa de 5 milhões pra fazer um teste.  Que teste é esse, meu Deus?

O São Paulo é um clube perdido sem direção desde 2007, quando Juvenal e sua turma assumiram o clube para ganhar campeonato de pontos corridos jogando um futebol de bosta enquanto faziam o que bem entendiam lá dentro.

Os gols camuflam qualquer coisa. O sãopaulino não é diferente da maioria, não vê além do placar. E enquanto os canecos eram erguidos, foda-se tudo.

Eu não sei mais como joga o São Paulo, qual a índole, a linha, os princípios e o norte do clube.  Eu só o reconheço pela camisa e pela casa.

Rogério é mais um encontro do nada com coisa nenhuma.  O clube que não sabe qual a sua filosofia com treinadores que chegam lá e encontram filosofia nenhuma. Logo, em questão de meses, nada dá certo.

A Taça de bolinhas que “sequestramos”, o futebol que deixamos de jogar, as tradições que deixamos de honrar e até mesmo a escrota vontade de ser o que não é, como o “vermelho cor da raça”.

Ninguém sabe quem é esse clube.

Rogério, Dorival, Leco, Juvenal. Tanto faz. Pode trocar mais 200 vezes, em todos os setores e direções.  A única coisa que dá certo no São Paulo é ser São Paulo.

Pegamos uma geração de filhos de conselheiros deslumbrada com o “soberano” e transformamos em “soberba”.  Uma torcida mimada que vê duendes, um estádio que ficou pra trás, um cenário político tosco, com corrupção e expulsão de presidente.  Um time que joga por jogar, que não faz novos ídolos e vive de tentar busca-los de volta.

Podem trazer o Tite, o Papa, o Padre Marcelo. Tanto faz.

Não é quem está ao nosso lado. O problema está conosco.

abs,
RicaPerrone

17 de junho de 92

Hoje o dia mais feliz da minha vida completa 25 anos. E eu não tenho o menor pudor em dizer isso porque nunca menti em nenhum dos meus casamentos, eventuais formaturas (que sequer compareci) ou outras festividades.  Nada na minha vida foi mais incrível que o exato momento da foto acima. Quando Zetti pega o pênalti de Gamboa.

Eu tinha uns 14 anos. Minha vida era resumida em fazer merda na escola, passar de fase no video game, jogar botão e acompanhar o São Paulo como um doente apaixonado.  Eu diria até que a escola, os botões e o video game eram complementares ao clube.

Na escola eu ia pra discutir futebol. No video game pra jogar futebol. E jogava botão pra colocar o São Paulo em campo. Em resumo, em 1992, minha vida era o São Paulo.

Naquele dia, após ter ido a todos os jogos no ano anterior e naquele na capital, eu senti algo novo. Não sou da geração que ganhava Libertadores. Na minha ela era marginalizada. Tanto que o SPFC até quis abandonar o torneio.  Mas foi indo, indo, indo…. e estava na final.

Quando na final, o torneio cresce. Mas a Libertadores, ao contrário de outros tantos criados por aí, era um gigante adormecido e não um anão fantasiado.  Quando pisei no Morumbi naquela noite, ainda era umas 17h tamanha minha ansiedade, eu senti que algo especial estava acontecendo.

Não sabia que era tão especial.

O jogo, o drama, a casa cheia, o som ambiente. Os pênaltis, o Rei Rai, o monstro Zetti, o predestinado Macedo.  O Galvão Bueno narrava na Gazeta! Quem diria?

E nos pênaltis que vi de joelhos, soltei as lágrimas mais sinceras da minha vida.  Eu nunca chorei tão honestamente. Nunca agradeci a deus com tanta convicção de não falar sozinho. Eu nunca fui tão feliz quanto naquela noite.

É vazio. Claro. Você tem uma vida e o futebol não pode jamais ser o motivo maior dela. Sinal que sua vida é tosca, não que o futebol é maravilhoso.  Mas aos 14 anos, convenhamos, eu tinha o direito de ter uma vida resumida a futebol.

Aquele campo invadido, o abraço no meu pai, a festa no clube, o placar dando dia e hora do Mundial de Clubes. E eu só olhava e chorava, cantava, gritava.  Me enrolava na bandeira, beijava o escudo, como que tentando agradecer por ser parte daquilo.

Ali eu já tinha meus mais de 300 jogos no estádio. Fácil. Frequento absurdamente desde os 3 meses de vida.  Mas ali eu entendi o que era futebol, pra que servia estar no estádio e o quanto as pessoas que acompanham pela TV não tem idéia do que estão discutindo quando falam de “viver futebol”.

Naquele dia eu descobri o tamanho do São  Paulo, o poder do futebol na vida das pessoas e o quanto é marcante “estar lá”.  Eu estive. Estarei sempre. Jornalista, empresário, idoso, solteiro, casado, pai, avô. Tanto faz. Aquele é meu lugar. E aquele foi o melhor dia para se estar nele.

Salve 17 de junho de 1992. O melhor dia da minha vida, ate hoje.

Saudações tricolores,
RicaPerrone

Você

Eu preciso escrever da a vitória do São Paulo sobre o Palmeiras.  Jornalisticamente, talvez eu devesse avaliar tática, falar do Prass, do Jean, achar “culpados” de lá, heróis de cá. Mas, foda-se.

Eu quero falar de você.

Tu sabe que eu te amo, né? A gente briga, passa tempo longe, as vezes flerta, mas no geral, sendo você o maior causador de alegrias e tristezas da minha vida desde 1978, é bem fácil perceber que te amo.

E eu assisti ao jogo de hoje como um marido que leva a esposa jantar após passar o dia com a amante. Não que eu conheça essa sensação, mas imagino qual seja.

Quarta fui ao Allianz. Hoje cedo à Arena Corinthians. E a tarde meu voo pro Rio me impossibilitava de estar no Morumbi pra te ver.  Porra, tu entende que é meu trabalho, mas mesmo assim me sinto meio filho da puta. Eu tinha que estar aí, né?

Eu sabia desde o começo da semana. Falei pra todas as pessoas: A gente ganha sábado.

Porque?

Porque é você.

Você não sabe ser saco de pancadas. Você não pode ser desafiado em sua grandeza dentro de sua fortaleza.  Uma vez acontece, duas, quem sabe? Mas hoje “PRECISAVA”.  E quando precisa, é você.

Tu fica ai nessa fase sem personalidade que já dura uma década e a gente cansa de você.  É um garoto tatuado, que vira roqueiro, depois entra pro samba, meses depois vira crente. Caralho, Tricolor! Quem é você?

Vai correr feito hoje? Vai jogar bonito feito na Florida? Vamos ser “o time da raça” todo vermelho que um asno branquinho inventou ou vamos ser o time que fomos desde a sua fundação e jogar futebol bem jogado?

Qualé a sua?

Eu to na sua. Sempre estive. E vou morrer abraçado a ela.  Mesmo sem saber qual é, sem entender o que você quer e pra onde você vai, é de uma irritante e absoluta verdade constatar que você ainda é boa parte da razão da minha vida.

Obrigado por hoje.  Levanta daí.

abs,
RicaPerrone

Rogério não é louco

Eu conheci o Rogério Ceni quando ele tinha uns 19 anos. Ele era reserva do reserva, jogava vôlei na social as vezes.  Nunca imaginei que ali estava um cara que faria a história que fez.

Rogério é um cara com o ego inflado. “Arrogante”, no Brasil, é o cara que tem conciencia de sua capacidade.  Rogério, portanto, é arrogante.

Tem defeitos. Não gosto de muita coisa que ele gosta. Do Baldassi por exemplo.

Uma coisa que ele não é, definitivamente, é “maluco”, muito menos “burro”. Rogério é um cara que responde as criticas, e isso no Brasil também tem nome: “não sabe aceitar criticas”.

Aceitar criticas, pra nós, é não reagir a elas.  Outro equívoco cultural. Tão grande quanto a covardia que é blindar por medo durante meses e massacrar em bando quando frágil.

Rogério nunca reclamou comigo de algo que escrevi sobre uma falha sua. Mas me explicou todas elas. Eu concordei, discordei, mas nunca fui censurado por ele. E a idéia que tentam fazer hoje de um cara que “não aceita críticas” por causa da reação irônica à mídia é de uma covardia ímpar.

Rogério não está contra que digam que ele é um treinador ruim. Até porque dizer isso em meses é meio impossível.  Mas ser contra que um chute numa prancheta vire manchete 30 dias depois porque foi encontrado pelos jornalistas uma brecha para encaixar uma crise é bem razoável, não?

Transformar os bastidores do famoso “tenho fontes que dizem que”  em novelinha de capítulos diários minando o ambiente no clube apenas quando a bola parou de entrar.  Covarde, não?

Quantos jornalistas queriam dizer que achavam ele ruim, não disseram por medo, e agora blindados pelo massacre coletivo meteram a cara pra detona-lo?

Rogério é chato pra caralho. Concordo.  Mas ele não é louco, nem burro.  O que ele está reclamando é da idiotice, da covardia, do mau jornalismo. Não de quem o avalia como fraco.

Não é um defeito “não saber lidar com a imprensa”. Ele é treinador, não assessor de imprensa. Defeito é a imprensa usar covardemente de fatos insignificantes, oportunistas e fora de contexto para alimentar uma crise e vender click.

Seja ele um grande treinador ou mais do mesmo, nada justifica a novela retrô feita contra o São Paulo nas últimas semanas.

abs,
RicaPerrone

Quem são vocês pra reclamar?

Na história fica a verdade e para a história fica o que vocês quiserem contar.  Um dia os clubes TIVERAM que se unir para fazer um Brasileirão e formaram nossa primeira e sonhada Liga.

A Copa União de 87 foi seguramente o melhor campeonato brasileiro que já tivemos. Durante o processo político com a CBF, os clubes se uniram e disseram “não”  a um documento assinado por Eurico Miranda, que é um dos que também reconhecem o título óbvio, claro e pouco discutível do Flamengo.

O ponto aqui não é o Flamengo. Podia ser o Inter, podia ser o Vasco, tanto faz. Naquele ano os clubes apertaram as mãos e feito homens disseram que estavam juntos e não jogariam o cruzamento político que a CBF pedia para autenticar a taça. Natural, nem condeno a entidade, pois é um conflito juridico.

Pra ser oficial, tem que ser seguindo os rebaixados e promovidos do ano anterior. E a CBF só poderia fazer isso criando essa fórmula. Só que o campeonato não era dela, e os clubes bancaram isso. Foi lindo. Um momento raro que não mais se repetiu de união e caráter.

Passados 30 anos, onde vocês estão?

Se escondendo pra evitar polêmica, rasgando documento para fingir que não viram ou com vergonha da época em que foram homens de prometer e cumprir mesmo podendo passar a rasteira no outro de madrugada?

Cadê os 12 dos 13?  Porque vocês estão se omitindo diante de algo que todos vocês criaram juntos e, porque só um ganhou, perderam o interesse em bancar?

Meu São Paulo, enorme, criador da Copa União, um dos pilares daquele acordo… você vai rejeitar pra pedir taça de bolinhas? É sério? Agradar um bando de conselheiro fanático é mais importante do que honrar sua história, seus feitos e sua assinatura?

É mais importante e melhor pro seu marketing ter uma taça idiota sem sentido dentro da sua sede do que pega-la e mostrar palavra e postura pro mundo levando pro dono?

O clubismo das pessoas é aceitável, porque o futebol é isso. A gente enxerga qualquer merda pra ver nosso time certo e o rival fodido. Mas quando pedimos caráter, postura, um país mais honesto e transparente, a gente vai apoiar que se vire as costas pra tudo que foi feito e acordado em troca de tacinhas, birrinhas e memes?

Eu não sei bem quem se posiciona de que lado nisso. Mas sei que esses clubes não podem reclamar da CBF, das Federações, da Globo, da puta que pariu.

Nós fizemos o campeonato! Nós não temos o direito de rejeitarmos o campeão do que criamos. Sejam maiores.  Tá na hora da gente crescer.

abs,
RicaPerrone