Maracana

Te pegou

Fred é tudo que um ídolo pode ser.  Artilheiro, vilão, herói, piada, vítima, perseguido, polêmico, vencedor.   O torcedor do Fluminense odeia ter que amar o Fred, mas ama.

Até mesmo aquele mais rebelde Young Flu que se nega a aceitar estar diante de um dos maiores nomes da história de seu clube, no fundo, adora o Fred.

Porque ele não joga sempre. Mas quando joga, sempre resolve. E quando resolve raramente é num jogo qualquer. Fred é protagonista de todas as semanas do Fluminense desde que chegou. E por consequencia, do futebol brasileiro.

Não há segunda-feira sem Fred.

Hoje, acho que pra quem é de fora, não há um Fluminense sem pensar no Fred.  Pra eles, lá dentro, sei que Conca ocupa mais espaço no coração tricolor. Mas é mais fácil ser Conca, convenhamos.

Regular, firme, bom jogador, quase mudo, pouco contestável e imune a qualquer conflito.

Fred é Renato Gaucho moderno. Fala o que pensa, faz o que quer, assume a condição de capitão, lidera um grupo, divide a torcida, resolve jogos, se faz fundamental até pra que o descartaria facilmente.

Você pode não gostar do Fred. Mas tem que, no mínimo, reconhecer que nem todo mundo consegue sair do inferno na sexta pra ser ovacionado no domingo.

Ele te pegou, de novo.

abs,
RicaPerrone

Eu queria jogar no Flamengo

Como todo ser humano de sexo masculino, as vezes me pego pensando “como seria”.  O povo, o campo, a bola, o golaço e eu correndo de braços abertos para comemorar. Sempre aos 44, sempre numa decisão, afinal, se é pra sonhar que seja pra valer a pena.

Eu não ia a um estádio desde a final da Copa do Mundo, curiosamente no mesmo Maracanã.  Naquele dia eu fui pra secar, ver o desespero alheio e dizer, pro resto da vida, que estive numa final de Copa.

Hoje fui pra ver gente. Muita gente.  O jogo em si pouco me interessava pois o futebol do Flamengo é pobre, cansativo, não vale nem o ingresso. Mas eles, que pagam pra entrar, deviam cobrar quando saem.

É repetitivo, os rivais enlouquecem, a “Flapress” aparece, mas…  como eu queria jogar no Flamengo. Um dia, só uma vez. Mas eu queria saber como é perder a identidade por alguns minutos.

Deixar de ser fulano pra ser parte de uma massa que te empurra numa direção sem mais se importar com sua vontade própria.

Aos 10 minutos do segundo tempo, como que avisados por alguém ou ensaiados de véspera, aquele povo todo começou a pular e cantar numa altura de final de campeonato.  O Atlético foi recuando e o time do Flamengo perdeu rostos.  Ninguém viu quem errou passe, quem fez o gol, quem sofreu o pênalti. Não havia mais qualquer individualidade no Maracanã.

Da cativa ao camarote, do treinador ao centroavante, era uma certeza de que algo aconteceria a seu favor quase inabalável.  Eu diria, agora, após o jogo, que eles já sabiam. Pois nem assistindo a um VT de um jogo eu consigo ter tanta fé no resultado.

Aos berros, empataram. E como quem psicografa um livro, tomados por espíritos que não são deles, os jogadores do Flamengo foram ganhando confiança, talento, vontade, divididas e o campo adversário.

Até que Eduardo empurrou pro gol e correu na direção do povo.  Você pode jurar que quando um jogador vira uma partida e corre pra torcida ele quer dizer: “Eu sou foda! Me aplaudam!”.

Mas eu juro que neste caso, e talvez somente neste clube, ele correu dizendo “obrigado!”.

abs,
RicaPerrone

Como não cai?

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Dizem por aí nas arquibancadas rubro-negras que “time grande não cai”. Eu discordo, muito, e espero não ter que vê-los convencidos do contrário em dezembro. Mas na real, se há uma tese a ser desenvolvida sobre isso talvez seja que “o Flamengo não cai”, mesmo tendo flertado tantas vezes, e porque não cai.

É repetitivo falar da torcida dos caras e isso revolta tricolores, botafoguenses e vascainos. Óbvio, é o ponto pouco discutível de uma lenda criada, mantida e hoje comprovada sobre a tal “força da nação”.

Não me diga que não é verdade, menos ainda que não faz tanta diferença. Estamos na rodada 14, os caras estão na lanterna. Qualquer um estaria fazendo protestos e só juntando cacos pra empurrar nas rodadas finais e desesperadoras.

Eles se anteciparam. Estão lá ao dobro do valor do ingresso cobrado pelo Flu, também carioca, vice líder até domingo.

Não é promoção, nem futebol, menos ainda pelo nível do adversário. Não me diga que é “flapress”, fica até desagradável numa segunda-feira como essa.

São os donos das ruas, comemoram não a vitória, mas a grande atuação que tiveram.

Não o time. Eles mesmos!

É raro, talvez único. Mas rubro-negros avaliam seu desempenho após o jogo como se fossem um jogador.

E não são?

Quem cruzou aquela bola ontem? Quem empurrou de cabeça? Quem não desistiu mesmo merecendo vaias e empurrou como se merecessem aplausos aos 40 do segundo tempo?

Era dia dos pais. Todo rubro-negro tinha todos os motivos do mundo pra não estar lá.

Mas enquanto todo mundo acorda e pergunta “porque ir ao Maracanã”, o rubro-negro se pergunta “porque não”?

abs,
RicaPerrone

Um domingo especial

Não é pelo Goiás, pela liderança ou por uma promoção de ingressos. Era pelo futebol apresentado, pela perspectiva e pela noite de homenagens.

Era dia de Assis, Washington e Fred. Três dos maiores ídolos que o Flu teve em sua história.  Dois já se foram, um voltou.

E num Maracanã com 40 mil torcedores prontos para aplaudir, as homenagens antes do jogo os levaram as lágrimas.  No telão, gols do passado glorioso com o casal 20 de uma história já escrita.  Em campo, as famílias. E no vestiário, a história que ainda se escreve.

O Fluminense precisou de pouco pra mostrar, de novo, um grande futebol e resolver o jogo.   Podia ter sido três ou quatro a zero. Mas não foi, pois o placar de hoje tinha que ter “20”.

E veja você que destino caprichoso.  Enquanto choravam a perda de 2 ídolos, aplaudiam outra partida brilhante de Conca e a volta de Fred, dois ídolos muito mais “tricolores” do que brasileiros. Tal qual Assis e Washington.

O Flu, o Maracanã, os ídolos juntos e “só deles”.

Parecia uma substituição qualquer quando Fred entrou em campo. Mas não era só isso. Saiam Washington e Assis, não o Sóbis. E entrava Fred.

O 2×0 no Goiás foi a coisa menos importante da noite.  Até mesmo do que  recado bem dado ao Cruzeiro: “Não é só você que sabe jogar bola”.

abs,
RicaPerrone

Um grande jogo

Um grande jogo de futebol não tem necessariamente muitos gols, nem um equilíbrio técnico que nos leve a dúvida do favorito.  Tem um roteiro previamente determinado capaz de ser jogado no lixo num simples lance.

Quando este lance não muda o roteiro, porém, é ainda mais difícil esperar um grande jogo. Os dois sabem o que esperar, não serão surpreendidos e portanto dificilmente farão algo especial.

Mas é especial um time que não recebe salário há 5 meses conseguir parar o líder do Brasileirão.  Como é absolutamente gratificante assistir o futebol jogado pelo Cruzeiro mesmo num dia não tão inspirado.

Era previsível a tentativa de contra-atacar do Fogão e de pressionar do Cruzeiro. Um palpite fácil até.

A bola teimosa que não quis entrar no gol de Jefferson entrou fácil pro gol de Edílson, onde dizem que um escorregão é falha.  Eu não entendo assim, já que um escorregão num campo molhado é imponderável, não uma falta de qualidade do goleiro.

Era o Botafogo tentando transformar suor em pontos e o Cruzeiro fazendo o mesmo via futebol bem jogado.  Tem dos dois, por mais que um mereça mais que outro.

O que importa?

As vezes é tão digno e merecedor o esforço de quem nem tem motivos pra estar ali do que o ótimo futebol de quem faz o ingresso valer a pena.

O Cruzeiro merecia vencer. Até deveria.

Mas o Botafogo não podia perder.  Hoje não.

É óbvio que amanhã o Cruzeiro volta a vencer, e bem.  Só não é mais tão óbvio que o Botafogo volte a perder, e muito mal.

abs,
RicaPerrone

Bom senso

Sob qual argumento botafoguenses e rubro-negros sairiam de casa neste domingo de chuva para ir ao Maracanã?

Pouca coisa seria capaz de convencer qualquer sujeito de bom senso a gastar alguns de seus suados reais com um jogo que sequer qualidade prometia.   Mais do que isso, mesmo que não comparecendo, a fé em seus clubes não tem razão de ser neste momento.

Mas aí separa-se dois perfis e é quando insisto em afirmar: O Flamengo ganha clássicos as 10 da manhã na padaria.

Por mais que o bom senso determinasse medo, nenhuma perspectiva e até mesmo o fundo do poço, eles combinaram  que não se importariam com os fatos e que domingo seriam apenas rubro-negros.

Desde quinta-feira eu ouço o flamenguista dizer que vai ganhar o jogo de hoje. Porque qualquer pessoa de bom senso diria que “tá foda”, “com esse time não dá”, “é lanterna”, “sei não”, entre outras frases absolutamente justificáveis com o momento do time.

O rubro-negro não tem bom senso algum.  O dele diz “é Flamengo”, “vamos ganhar”  e nada mais. E como que numa virose sem cura e explicação, um monte de gente vai com a mesma roupa na mesma direção e dizer que acredita em duendes.

E não é que o Duende aparece?

Eu desisto de te entender, Flamengo. E nem ouso duvidar de ti.

abs,
RicaPerrone

Os donos da festa

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Que prazer te coroar, Alemanha.  Não porque desejei, é claro que não. Queria estar de verde e amarelo bebado nas ruas gritando até me acabar. Mas não tendo sido nossa, que seja então de quem joga futebol e merece.

A simpatia, a camisa, os twittes em portugues. O maior cavalo de Tróia da história do futebol deu certo.  Te recebemos como amigos e não como rivais. E vocês saem daqui com a taça.

Mas não porque de dentro do cavalo sairam gladiadores, mas sim um futebol bem jogado, frio, fácil, mas muito acima da média mundial.

Eu sei que vão tentar achar mil formas de justificar tudo isso em cima de projetos que talvez nem tenham existido. Aqui é assim. Se o Itaperuna ganhar a série C nego vai dizer: “Puta trabalho” sem nem saber quem é o tecnico.

Se perder, “trabalho fraco e ultrapassado”.

Enfim. Vocês merecem a taça, nossa simpatia, nosso respeito e nosso carinho.

Acho que poucas vezes uma Copa esteve tão em boas mãos como esta. Num time sem craque, sem gênio, coletivo, no chão, quase um “não” ao futebol alemão do passado.  Mas de alguma forma, olhando com bons olhos, uma evolução a quem sempre nos respeitou como referência e agora inverteu a situação.

Parabéns! E voltem sempre.

Fizeram história, gols e muitos amigos. Até já, em 2018, na Russia.  E vê se não espalha o 7×1, pô…

abs,
RicaPerrone

O gol da Copa

Uruguai x Colômbia não é o tipo do jogo que se sonha em ver numa Copa do Mundo.  Não porque é ruim, ao contrário, mas porque é pouco raro.

Rivalidade a parte, há um abismo entre o que representa o Uruguai ao futebol e a Colombia. Mesmo abismo de diferença técnica entre os dois times neste sábado, só que para lados opostos.

Com bola no chão, de pé em pé, lúcida e envolvente, a Colômbia fez 2×0 com uma facilidade irritante.  Aproveitando para que James Rodriguez, o “maestro” deles, fizesse o gol da Copa até então.

Aquele mar amarelo no Maracanã com aquele show de bola de um time da mesma cor me remetia a outros momentos.  Por diversas vezes confesso ter vislumbrado a final. Pelas cores, e acredite, até pelo futebol apresentado.

Vem aí a Colômbia. Mais forte que Chile e Uruguai  E se acho isso, porque torci por ela?

Simplesmente porque ela respeita mais o Brasil do que o Uruguai.  E na falta de bom futebol, hoje, temos na camisa boa parte da nossa chance de vencer.

Mas se não vencermos, pelo que vi até aqui, não posso sequer me dizer surpreso. A Colômbia joga o melhor futebol da Copa.

O que não quer dizer que seja o mais competitivo.

abs,
RicaPerrone

A Copa no Metrô

Era uma tarde comum no Rio de janeiro não fosse a presença ilustre de milhares de franceses e equatorianos.   Se de um lado era um festival de “Si, se puede”, sabendo que não poderiam, do outro era só euforia pelas oitavas, já sabendo que seria a Nigéria o próximo alvo.

“Allez les blue” pra lá e pra cá, franceses cheios de camisas do Zidane.

Eu não costumo me incomodar com isso, mas é quase como um poster do ex namorado da sua esposa na sala de casa. A imagem não te faz nada, mas irrita.

Ao contrário de outros tantos, os franceses parecem saber o mal que já nos fizeram e nem por isso se consideram maiores. Tem respeito pelo nosso futebol e muita admiração.

Na volta do estádio, após jogo mediocre terminado em 0 a 0, um grupo de franceses falava sobre Neymar. Ao lado deles, me intrometi num meio português/espanhol/sinais com a mão/ingles  e consegui lhes dizer que ele veio do Santos, time de Pelé.

Continuamos.  Conversei com eles por 3 estações até chegar a Del Castilho, nosso destino.  Eles entendiam, perguntavam, eu respondia.  Foi de Neymar a Copa de 98, onde fiz cara de “evitem o tema”.

Simpáticos, iam se despedindo na saída do metrô quando um deles disse: “Valeu, irmão”.

Me virei calmamente, após 20 minutos de tentativas de dialogar com os franceses, e perguntei:

– Você é brasileiro, irmão?
– Não. Sou frances. Mas venho sempre ao Brasil.
– Porra, e porque você não me ajudou a traduzir o papo?
– Desculpa, amigo. É que eu prometi pra eles que o brasileiro fazia qualquer esforço pra ser simpático. Eles precisavam ter a prova.

Eu não sabia bem se xingava o francês ou se achava genial.  Mas diante dos outros 4 rindo e tirando fotos com brasileiros que saiam do metrô cantando “mengo”, acho que entendi.

E fui pra casa sem lembrar de Zidane, Platini e Henry.

abs,
RicaPerrone

A invasão

Eu estava entrando no exato momento da confusão. Do lado de fora torcedores do Chile não muito bem intencionados estavam parados ao lado de um portão qualquer. Não tinham ingresso e nem teriam como conseguir. Mas estavam em grupo ali esperando alguma coisa.

Não entendi. Até que entrei e segundos depois ouvi um barulho quando aparentemente alguém da equipe de uma ambulância tentou entrar no portão para trabalhar. As imagens abaixo explicam melhor do que eu.

 

Só que eles não entraram na arquibancada. Aquele portão levava a sala de imprensa.  Imagine você, 100 torcedores entrando correndo sem saber onde daria e dando de cara com a imprensa do mundo todo.

Correram, foram pegos, quebraram, tentaram, e foram em cana.

Um ato pensado e selvagem de uma duzia, que levou mais uns 80 na cola deles quando viram o portão aberto e gente entrando. No video acima você vê um policial dizendo pro chileno: “Voce tem filho porra!”, achando um absurdo um pai ter colocado a criança naquele risco por um jogo de futebol.

As fotos abaixo eu que fiz também.  A invasão, a sala de imprensa, o tumulto, enfim.  Um vandalismo estúpido. Mas causado por uma minoria. A enorme parte dos chilenos se comportou muito bem no Maracanã.

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